quarta-feira, 22 de julho de 2015

PRIMEIRAS IMPRESSÕES: NO MERCADO!

Bom, quando a gente muda de país, até se for para um país vizinho, vamos ver e viver outra realidade, Vindo para o Texas, eu já sabia que seria tudo muito diferente mas é no dia a dia que vamos nos deparando com o abismo que separa as culturas. Coisas absolutamente simples, como ir ao mercado, demandam, no início, um grande trabalho. E eu vou contar minha primeira vez no mercado.
Para começar, tem um mercado ao lado do nosso prédio, bem perto mesmo. É este que estou indo com maior frequência,claro. O nome é Kroger. Fomos, a família toda, fazer umas compras emergenciais no primeiro dia e, com as crianças do lado, nem deu para ver muito. Depois, fui sozinha pela primeira vez. Aí, sim. Aliás, aí, não! Não, não, não, não! Tudo confuso!
Você pode conhecer a língua (tenho um inglês bem razoável), mas isso não te ajuda muito. Você entra no mercadinho e ele tem o tamanho de um mercado mega do Rio. Até aí, ok. Você começa por verduras e legumes e essa parte é fácil! Frutas são frutas e pronto. Na parte das verduras, eles facilitam: absolutamente tudo já cortadinho, pronto para ser consumido. Tá. Aí você continua andando. Carnes. Cadê a alcatra? Maminha? Contra-filé? Os nomes são todos diferentes e você supõe que o boi deva ser o mesmo, então, eles dever dar diferentes nomes ao mesmo corte de carne. Errado, os cortes são mesmo diferentes. Tem algumas coisas iguais, mas muita coisa, não. Aí você avista um peito de frango, sem pele, numa bandejinha. Isso aí, frango é frango e a sua bandeja ainda diz que é sem hormônios, aditivos e etc. Pronto, escolhido este item sem grandes problemas. Vamos continuar. Corredor de biscoitos. Cream cracker, cadê? Ah, tá ali, e são 986542 tipos diferentes de biscoito! Você pega um, lê a embalagem, pega o segundo e já começa a ficar confusa: um tem o dobro de sal do outro ou entendi errado? Melhor desistir do biscoito! Bom, tem este outro aqui que as crianças daqui comem - pouco sal, sem conservantes... Vai este, mesmo. Continua no corredor. Ué, batom no corredor de biscoito? Ah, tá, estou no corredor 'natural', põe as coisas saudáveis junto. Bom, pelo menos peguei os biscoitos certos, então. Próximo corredor... Nossa, que frio! Que geladeira no meio do mercado é essa, meu Deus? Opa, rolinhos primavera congelados? Ai, sai prá lá, tentação, vão ficar aí mesmo gelando! Próximo corredor. Ah, comida de cachorro, ótimo! Opa, pera! Nachos? Num saco deste tamanho? Até para mim, que gosto, está grande demais... Ah, olha, um tamanho menor. Este é só gigante, deixei o super mega lá. Vamos lá, vamos lá. próximo corredor... Sal! Ah, tá ali. Um corredor inteiro só de sal? Como assim? Pera lá, qual é o sal, sal, normal, de cozinha, que usamos? Sal iodado, sal sem iodo, sal marinho, sal vermelho... Cruzes! Já estou no mercado tem mais de uma hora e só tem 4 itens no carrinho! Exausta e ainda sem decidir o sal! Tá, este diz apenas 'sal'. Menos é mais, vai este! Ok, próximo item... Leite, ok. Ok? Aquela é a geladeira do leite - penso, querendo chorar diante das 78554342 opções de leite. Deixa eu ler o rótulo. Pronto. Já passou mais meia hora até eu decidir o leite. A irritação me domina e eu só penso em ir logo embora. Então dou de cara com o próximo corredor: limpeza. É a redenção do mercado! As opções infinitas não me estressam: leio que você joga um jato e tira a mancha do carpete; joga um jato e tira a mancha do banheiro. Tudo sem nenhum esforço! O ânimo volta quando já me dirijo ao caixa, com pouca comida e muitos produtos de limpeza. E então, enquanto começo a passar as compras, lembro que esqueci o açúcar. Onde ficava, mesmo? Ah, sim, no corredor oposto ao do sal. Me lembro de ter percorrido os olhos e ter me cansado só de ver a infinidade de rótulos que teria que ler até achar o 'açúcar, açúcar'. Penso em voltar para pegar, mas, ali no caixa, decido: melhor a família inteira começar uma dieta! Pelo menos até as próximas compras... :)

Diário de bordo: para me lembrar no futuro

Como disse, este blog seria para contar o que está acontecendo conosco nesta fase de adaptação, mas também para que eu pudesse deixar registrado como me sinto. Sei que com o tempo, vou esquecer, então, quero anotar. Resolvi fazer uma listinha de 'como me sinto morando nos Estados Unidos', de tempos em tempos. Ontem completamos 15 dias aqui e fiz a primeira lista. :)

COMO ME SINTO MORANDO NOS ESTADOS UNIDOS

Como me sinto morando nos Estados Unidos (15 dias):

- Me sinto o máximo quando consigo ir aos lugares sem usar o waze! Ainda sou dependente do aplicativo, mas já consigo me virar em alguns lugares.
- Andar por aqui, só de carro. Com o calor, ar condicionado o tempo todo. Mas se as crianças querem abrir a janela, não há problema algum. Não há medo de ser assaltada. Acho que é por isso que cariocas só são assaltados quando saem do Rio: em casa, estamos cem por cento alertas, fora do Rio, relaxamos. Sendo que aqui parece que não há mesmo motivo para este tipo de preocupação.
- Crianças são altamente adaptáveis e nos dão injeções de ânimo e bom humor diariamente.
- Cachorras, idem!
- Pimenta é tempero, serve para realçar o sabor da comida. Alguém deveria avisar aos texanos que é para realçar o sabor e não para sobressair ao sabor! :/
- Estômago em chamas: os gastros devem vir a se tornar meus melhores amigos por aqui...
- Auto-medicação faz parte da cultura. Você entra na farmácia e consegue comprar um medicamento para clamídia, por exemplo. Mas pílula anticoncepcional, só com prescrição. Achei estranho.
- Janelas o tempo todo fechadas, todos os lugares atapetados. É estranho, mas a casa se mantém mais limpa por mais tempo.
- Já engano como local: me pediram informações numa loja de festas (adivinharam minha expertisse, será? Hahahaha) e no mercado.
- A ficha começa a cair. Esta agora é a nossa casa, não estamos de férias.
- Ainda temos um milhão de burocracias para resolver, desde o contrato de aluguel até meu seguro social, que não conseguiram fazer porque erraram meu nome na minha entrada no país! :/
- Já temos carros e eles são lindos. Isto foi uma conquista bem bacana. :)
- Casa a caminho, mas com um contrato que teremos que mexer e remexer. Algumas cláusulas são descabidas!
- A televisão está ruim no Brasil. Aqui, também. 
- TV Globo: não assistíamos em casa - Felipe via o jornal pela manhã - não está fazendo a menor falta por aqui. Já o Discovery Kids tem sua ausência sentida pelas crianças. Estão vendo Sprout, mas, sem conhecimento da língua, não é a mesma coisa...
- Radio de rock antigo: quem inventou isso? Todo meu amor por você! Mais de uma estação de rock e uma só com velharia. Estou curtindo muito.
- Brasileiros são brasileiros em qualquer lugar do mundo! Todos os que encontramos até agora foram se oferecendo para nos ajudar, dando dicas... O país pode estar ruim, mas, povo como o nosso... <3

quinta-feira, 16 de julho de 2015

BYE, BYE, BRASIL! :)

Bom, como eu disse, tivemos um bom tempo para nos acostumarmos à ideia da mudança. Era de se esperar, então, que família e amigos também, da mesma forma, estivessem convencidos disso, certo? Errado! Nesta de vai-não-vai, ninguém acreditava mais que viríamos mesmo, então, quando dissemos 'estamos indo!', muita gente se assustou! Foram vários eventos: tive almoço de despedida com minhas amigas, Felipe teve happy hour com  amigos de trabalho. E no dia de ir embora, teve muita gente querida indo se despedir no aeroporto! :) Foi parte da família (sim, é enorme!) e muuuuitos amigos! Não dá para por todas as fotos em um post (vou ver se faço um álbum na página do face), mas coloquei algumas. Já que imagens valem mais do que mil palavras, acho que dá para ver como foi nossa despedida, né? Cheia de amor! Nos sentimos muito felizes e abençoados por ter tanta gente ao nosso lado, torcendo pela nossa alegria, desejando boa sorte nesta nova fase... E estamos esperando este povo todo aqui, o quanto antes! :)

Houston, dear, te prepara que o Rio de Janeiro vai invadir sua área! :D






domingo, 12 de julho de 2015

COMO EU VIM PARAR AQUI?

Quando eu digo que 'fui pega de surpresa' com a mudança para o Texas, não estou sendo exata. Na verdade, tive muito tempo para me preparar. Mas algumas pessoas ficaram, de fato, sem saber que estávamos vindo. Eu comecei a escrever no meio do processo de mudança, quando já estava tudo encaminhado para virmos. Já contei como foi o voo para cá. Me dei conta, meio sem querer, que a história começou na metade e resolvi, agora, rebobinar a fita (tem menos de 25 anos? Pede para alguém com mais de 40 explicar o que isso significa! :D ) e voltar ao começo desta história. Afinal, como viemos parar aqui?
Em meados de 2011, meu marido veio participar de umas reuniões da empresa dele aqui. Na época, ele foi elogiado pelo trabalho que vinha fazendo e indagaram se ele teria interesse em vir para cá. Ele voltou para o Brasil animado com a novidade. E eu joguei um tremendo balde de água fria! Tínhamos, então, um filho de um ano e meio e eu estava grávida de nossa filha. Minha primeira (e super espontânea) reação foi 'ter a Lara fora do Brasil? Nem pensar! Aliás, antes dela fazer dois anos, não saio daqui mesmo!' Parece radical? E é. Mas com uma criança pequena, um bebê a caminho e duas cachorras, era inviável me imaginar sem o apoio da família...
O tempo passou. Em 2013, o Felipe tinha que, novamente, sair do Brasil a trabalho: ele passaria uma semana na Noruega e uma semana em Houston. E ele sugeriu que eu viesse encontrá-lo em Houston. Achei ótimo, pois poderia matar as saudades de nossos amigos Jade & Robert e finalmente conhecer o filho deles, Nelson. Vim, super animada e foi tudo realmente ótimo. Em algum ponto da viagem o Felipe me disse algo como 'e aí, você acha que poderia morar aqui?' Eu pensei um pouco e disse 'sim, acho que sim.'
Em dezembro deste mesmo ano, depois do meu aniversário, meu marido veio com a novidade: 'fui convidado para trabalhar em Houston!' Ali, meu chão desabou. Minha avó tinha acabado de completar 98 anos de idade. A proposta era que ficássemos dois anos aqui. Eu olhava para o Felipe e dizia 'se eu for, quando eu voltar, não tenho mais a minha avó...'
Bom, 'da morte ninguém sabe o dia, e nem pode saber!', é verdade. Claro que qualquer pessoa viva pode morrer num segundo, por uma fatalidade qualquer. Mas o meu sentimento era de que a minha avó, e apenas ela, eu realmente não veria. E eu sofri muito com isso.
Os meses foram passando e não viemos na data programada. A crise de petróleo, global, começou a causar diferentes demissões. Já estávamos em meados de 2014 e nem sombra de virmos para Houston. O Felipe acabou desistindo do convite que tinha recebido (de uma 'empresa-filha' da dele) e acabou aceitando um convite para vir para cá pela própria empresa dele.  E então.
Agosto de 2014. Minha avó passou muito mal, numa segunda-feira. Corremos com ela para o hospital Quinta D'Or. Ela não conseguia respirar, estava com muita dor. Conseguiram estabilizá-la. Os dias seguintes foram tortuosos, com melhoras e pioras. Até que no dia 04 de setembro, minha mãe tinha dormido com ela. Quando eu cheguei, para que minha mãe pudesse ir em casa descansar, o médico olhou para mim e disse 'precisamos conversar.' E eu já sabia o que ele ia dizer.
Não vou detalhar, porque ainda é muito doloroso, mas o fato é que Deus me permitiu estar com minha avó até seu último dia. E os dias seguintes foram um buraco negro: fiquei me sentindo vazia sem ela. Mas o tempo continuou passando e, com duas crianças chamando pela mamãe, não dá para fraquejar.
Nossa situação permanecia inalterada. Meu marido estava frustrado: não tinha assumido nenhum projeto no Rio e não vínhamos para Houston. Foi o pior ano de nosso casamento, sem dúvida: tudo era motivo de briga. Também isso passou. 
O ano virou e então, de repente, tínhamos data para vir: maio de 2015! Estávamos estranhando a calma com que a empresa estava conduzindo nossa vinda, mas, ainda assim, confiantes de que viríamos. Só que soubemos que a empresa dele tinha demitido uma leva grande de pessoas. Chegou, então, em março, a notícia: 'não temos dinheiro para trazer vocês!' 
Ao contrário do que eu esperava, meu marido não ficou frustrado. Disse apenas 'ok, não vamos mais, então eu vou ver o que exatamente vou fazer por aqui!' E foi conversando aqui e ali e vendo o que assumiria e tal. Eu estava, confesso, aliviada. Mas um pouco frustrada, por ele. E um pouco perdida, também: passamos tanto tempo na expectativa de algo que, de repente não aconteceria. O que fazer a seguir?
Estávamos pensando justamente neste 'o que fazer a seguir': trocar de carro/ quitar a casa, etc, etc. E aí, aconteceu algo engraçado. Aliás, algo que acontece quando alguém quer muito uma coisa... 
De tanto pensar naquilo, de tanto desejar aquilo, de repente, aconteceu! Em meados de março recebemos a notícia de que a empresa do Felipe não teria como trazê-lo naquele momento. Duas semanas depois, a tal 'empresa-filha', ao saber que ele não vinha mais, o procurou. "E aí, você ainda quer vir para Houston?"
Desta vez era sério: em abril estávamos, eu e ele, em Houston, onde ele teve reuniões, ouviu a proposta. Conversamos, muito, muito, muito. E em 06 de julho pegamos o avião para cá, como eu já contei aqui.
Este foi apenas o comecinho da nossa história em Houston. Um pouco conturbado, é verdade. Mas foi apenas o prólogo. Houston parece os mesmos braços abertos que o Cristo na nossa cidade...

Houston, dear, obrigada pela recepção carinhosa! :)

quinta-feira, 9 de julho de 2015

A MELHOR PIOR VIAGEM DA VIDA!

Para quem ainda não viu, vou começar tranquilizando: sim, chegamos. Sim, estamos bem. :)
Entramos no avião pouco antes das nove da noite do dia 06 de julho, segunda-feira: eu, Felipe, Davi, Lara e Tininha. Por ser uma buldogue francesa, Tina corria risco de morte viajando no porão do avião. Graças à ajuda de uma neurologista e uma psicóloga, a quem visitamos, conseguimos posicionar a Tina como 'animal de suporte emocional'. Ou seja: ela foi autorizada a ir conosco na cabine. Sem precisar de caixa de transporte, focinheira, nada. Nada mesmo: não nos custou um centavo! Desde que começamos nossa odisseia de mudança, trazer a Tina era causa de grande preocupação. Tê-la conosco, no voo, foi um alívio. Mas foi também um sufoco: ela não é exatamente leve e teve que ficar no colo todo o tempo. Somando a isso duas crianças, dá para imaginar como foi?
Eu viajo de avião sem problemas. Sempre disse isso. Sempre achei isso. Mas eu nunca tinha, de fato, viajado como desta vez. Normalmente, antes de entrar no avião, eu já tomo uns tantinhos de passiflora para relaxar. Quando vejo que a refeição será servida, engulo um dramin. Ou seja, eu normalmente apago durante todo o voo e acordo feliz da vida no destino. Com duas crianças e uma cachorra, como dormir? 
As crianças se comportaram muito melhor do que eu esperava. Entraram no avião, sentaram em suas cadeiras e afivelaram os cintos (só andam com cadeirinha no carro e estão muito acostumadas a cintos de segurança, ainda bem!). Viram dois episódios do Mickey, jantaram e, quando o piloto apagou as luzes, perguntaram 'está na hora de dormir?' Confirmei e eles viraram para o lado e dormiram, simples assim. O Davi dormiu, dormiu mesmo: foi até o dia seguinte. A Lara teve um pesadelo, acordou agitada querendo fazer xixi, mas isso depois de várias horas de sono. Fiquei com ela no colo e consegui fazê-la dormir novamente até a hora certa de acordar. Os dois despertaram excitados e felizes.
Tina foi a sensação do avião! Eu viajei entre o Davi e a Lara e o Felipe foi ao lado, cuidando da Tina. Mas assim que entramos no avião, uma moça pediu para ficar com ela - pegou-a no colo, ficou fazendo carinho e ficou um bom tempo assim, então o Felipe teve uma folga legal. Depois a moça a devolveu, mas todas as pessoas sentadas perto queriam fazer carinho e mexer com ela. No meio da noite, Felipe dormia com ela no colo e eu a peguei um pouco, para ele se acomodar melhor.
E eu? Eu fiz a melhor pior viagem da minha vida! Foi a melhor porque tudo deu certo e chegamos os seis sãos e salvos a Houston. E foi a pior porque... nossa, como senti cada segundo daquelas horas! :/
A Capitu tinha ido no porão - ela é muito grande e agitada e seria loucura nossa tentar trazê-la conosco na cabine. Como ela é labradora, não corria risco de morte (o caso da Tina é bem específico: animais de focinho curto podem sufocar nos voos) , então, contratamos um despachante para embarcá-la. O Felipe a deixou por volta de uma da tarde no aeroporto. A agonia começou ali: Felipe ficou arrasado em deixá-la ali, trancada, longe de todos nós por tantas horas. Sabíamos que era o único jeito, mas o coração aperta. Enfim. O avião decolou e o piloto já avisou de cara que estávamos pegando turbulência. Como se precisasse avisar: o troço não parava de sacudir! E eu ali, em pânico, rindo para as crianças e dizendo que aquilo era mesmo muito divertido. Ainda bem que eles não são medrosos e estavam achando graça da brincadeira 'sacode chacoalha balança bambeia avião' que a mamãe inventou (nota: inventando brincadeira, música e dancinha enquanto rezava uns 6735 Pai-Nossos por segundo, claro!). Bom, depois o bicho deu uma acalmada e seguiu tranquilo um bom tempo, as crianças dormiram e tal, Felipe também. E começou nova sessão de 'vamos testar a sua Fé'. Sacode para cá, balança para lá. E eu entrei numa paranoia tremenda, por não saber como estaria a Capitu. Que desespero! Eu conseguia vê-la sendo jogada de um lado para o outro. Me deu tudo: dor no corpo, dor de cabeça, sensação de sufocamento, vontade de gritar. Eu levantei, andava pelo avião, aquele corredor comprido, indo de um lado, até o final, e voltando pelo outro. Sem motivo, parando no banheiro para não parecer maluca, mas com uma esperança de ouvir, sei lá - um latido, um som, qualquer coisa. Me internem, mereço! Mas foi realmente desesperador. 
Lara acordou , fiquei com ela e, por mais que tenha sido ruim, teve um lado ótimo, de desviar minha atenção. Depois que ela voltou a dormir, voltei a pensar em como estaria a Capi no porão.
O avião pousou sem problemas, na hora certa. A Tina virou a sensação também do aeroporto. Chegamos exaustos, Felipe e eu, e as crianças no maior pique. Pegamos nossas malas e andamos com muita dificuldade (trouxemos muita coisa, como vocês devem imaginar). Passamos pela Alfândega sem problemas, mas fomos parados adiante. Nesta hora, confesso, tive pânico! Antes de sair de casa, naquela de 'dar uma geral em tudo', achei muitos remédios na validade. Coisas que eu poderia usar aqui - e provavelmente usaria. Então, saí tacando tudo na mala. Mas eu não tinha receita, e, ao nos ver retidos, pensei: 'danou-se! Ainda nem entramos e já vão me mandar de volta!' Mas eles não queriam fazer raio x de nossa bagagem gigantesca, para minha alegria. Só precisavam conferir os documentos da Tina, viram que estava tudo ok e nos liberaram.
Pegamos o carro, previamente alugado (mais para caminhão que para carro, mas tudo bem!) e fomos direto buscar a Capitu. Chegando lá, eu fui conversar com a inspetora e ela disse que teríamos que ir ao Controle da Fronteira para levar uns documentos e que, quando os tivéssemos em mão, poderíamos buscar a Capi. Ela me garantiu que ela estava bem e, neste instante, chorei um pouco.
Fomos até o Controle da Fronteira, o Felipe levou os documentos e eu fiquei no carro com as crianças. Demorou longos vinte e poucos minutos. Saímos, voltamos para o lugar anterior. O Felipe ficou no carro com as crianças e eu fui buscar a Capitu. Dei a documentação e uma moça disse que iria buscá-la. Deve ter levado entre 5 a 10 minutos, mas, juro! Pareceu que fiquei umas duas horas esperando. E então a moça trouxe num carrinho duas caixas de transporte e na da esquerda eu vi a Capi. Ao me ver, ela começou a latir, eufórica. E eu desabei. Comecei a tremer e chorava compulsivamente! Eu não conseguia nem abrir a casinha e a moça me ajudou. Ela pulou em cima de mim e eu a abraçava e beijava e rezava, tudo ao mesmo tempo. O casal ao lado também chorou quando pegou seu husky siberiano, mas longe de fazer a cena que eu fiz. Se alguém tivesse dúvida, ali dava para saber o quão latina eu era! :p
Quando a Capi viu o Felipe, ficou louca! As crianças, que perguntaram por ela no avião e desde o desembarque estavam perguntando onde ela estava, ficaram super felizes em vê-la, também. Mas... ao ver a Tininha, Capitu surtou! Partiu para cima dela!
Quem acha que cachorro não entende nada é porque nunca teve um. Entendem e entendem muito bem! E a Capi entendeu que ficou quase 24 horas afastada da família e a Tininha, não. Ou seja: crise de ciúmes braba! O primeiro dia foi assim: com as duas se estranhando. Um estresse, claro. Mas o menor de todos eles. Chegamos os seis, bem, à nossa nova casa - melhor dizendo, apartamento. Passaremos as primeiras semanas aqui.

Houston, dear, aqui estamos. Trate-te nos com carinho, viu?  :)


PS: resolvi escrever sobre como foi a viagem porque tinha muita gente perguntando. Mas depois eu vou relatar nossa saída e a festa que foi no aeroporto lotado de amigos! :D

segunda-feira, 6 de julho de 2015

ATÉ LOGO, AMIGOS!



Quando minha grande amiga Fabiana se mudou para os Estados Unidos, eu não sabia quanto tempo ela ficaria fora. Nem ela sabia, na verdade, pois nunca sabemos o que o futuro nos reserva. Mas ela casou-se lá, fez a vida dela lá. E eu sentia muitas saudades dela. Neste tempo, não existia facebook, whatsaap ou skype. Trocávamos correspondência à moda antiga: cartas e cartões que demoravam tempo demais para chegar. Passamos anos sem nos ver e eu me lembro do dia em que nos vimos, depois de muito tempo apenas nos correspondendo. Ela já era mãe e trazia ao Rio de Janeiro o filho mais velho - que a esta altura já andava e falava. Sentamos - eu, ela, Carol e (acho) Clá e Dri - num restaurante. E eu vi aquele menino, pela primeira vez, que eu não vi na barriga, que eu não conheci na maternidade, que eu não fui ao batizado, e meu coração se encheu de amor. Eu me apaixonei pelo Sookie imediatamente e era, no meu coração, meu sobrinho. Depois de anos sem ver a Faby, encontrá-la foi como se... se ela estivesse fora há dias, ao invés de anos. A atualização foi imediatada e nos falávamos como se nunca tivéssemos passado mais do que umas duas semanas afastadas. Ali, eu soube. Amigo é para ficar do lado, mas tem que ser do lado certo.
Hoje à noite, depois de uma longa espera e muita expectativa, estamos indo para o Texas. Entramos no avião no Rio de Janeiro e amanhecemos em Houston, com a graça de Deus! A ansiedade é enorme: Felipe está enjoado desde ontem e praticamente não dormimos esta noite. Ainda falta terminamos de arrumar as malas, conferir documentação da Capitu, comprar alguns remédios... A sensação de que esqueceremos algo é tão real que enlouquece. Mas conseguiremos embarcar, os seis - eu, Felipe, Davi, Lara, Capi e Tina - no mesmo voo. E é só isso que importa, afinal: chegarmos bem os seis lá. O resto a gente dá um jeito. :) Fácil assim? Não, não é. Pelo contrário, é difícil pacas. Qualquer mudança é assim: afastar-se 'de casa' é um pesadelo. Não pela casa, mas pelo que deixamos para trás. E o que deixamos... São vocês, família e amigos. Deixamos?
Muitos amigos estão reclamando que não conseguiram se despedir. Muitos estão antecipadamente sentindo a nossa ausência. Então, eu resolvi contar para vocês o que eu aprendi com a 'ausência' da Faby. Amigo tem que estar do lado, mas é do lado certo. E o lado certo é dentro da gente! :) Hoje, quando embarcarmos para o Texas, não deixamos vocês para trás, não mesmo! Nós estamos levando vocês conosco. Em cada uma das nossas histórias, em todas as partes da nossa memória, em fotos, em presentes, em muitas risadas. Levamos vocês costurados e colados em todas as partes de nossos corações. Levamos vocês em quem somos, nas comidas e bebidas que compartilhamos, nos filmes e peças que assistimos juntos. Levamos vocês conosco e nos deixamos aqui, inteiros, de coração, para vocês!
Eu tinha medo de que as crianças pudessem não ter esta mesma percepção que tenho. Mas em 13 de junho, tive uma alegria imensa. A muito amada prima Fefê, que mora em Brasília, estava no Rio e pudemos nos despedir - dela e dos pais dela, primos que amamos muito. Davi e Lara não viam a Fernanda desde fevereiro e ao se verem... se abraçaram e começaram a brincar numa euforia feliz. A conexão é imediata, impressionante! Eles se veem poucas vezes ao ano, mas já se tem do lado de dentro: se amam sem precisar estar colados o tempo todo para saber o quanto se amam! E isso me deu uma paz de espírito danado: meus filhos já levam seus amores consigo. 
Durante todo este árduo processo de mudança, a única vez que eu caí foi no sábado. Arrumando a mudança em si, recolhendo lembranças, separando nossas coisas. E eu peguei um mundo de coisas que me lembrou demais a minha avó. E eu chorei. Chorei porque ela está muito viva dentro de mim, ela sempre estará ao meu lado. Mas a ela eu não posso mais beijar e abraçar. A todos vocês, amigos queridos, eu posso. E vou! Muitas e muitas vezes, acreditem! Como diz meu marido: é só o Texas, não estamos indo para Marte!
Estamos indo sem data para voltar. Mas voltaremos, podem acreditar. E esperamos visitas! Então, troquem lágrimas por planos concretos de viagem, tirem passaporte, vistos, usem suas milhas. E tenho certeza que, quando nos encontrarmos, será como se nunca tivéssemos saído do lado de vocês. e vocês verão que nunca saímos de verdade. :)

Até logo, amigos! Nós vamos, mas voltamos num dia de sol.

Muitos beijos a todos vocês que estamos levando conosco. E a todos vocês, amigos queridos, que estão nos esperando para fazer parte de nossas vidas no Texas.

Houston, dear, estamos pronto para você! :)

ESTA FOTO LIIIIINDA FOI TIRADA PELA MINHA AMIGA PATRÍCIA NUÑEZ EM SUA CASA, COM LARA E VALENTINA, NOSSAS FILHAS, BRINCANDO DE PRINCESAS. AMO A FOTO E AMIZADE ENTRE AS DUAS!

sexta-feira, 3 de julho de 2015

À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS!

Humor do dia: estou pronta para virar uma personagem do Almodóvar! A sensação é de que não vai dar tempo. Simples assim: não vai dar tempo de empacotar tudo, não vai dar tempo de organizar as coisas importantes, não vai dar tempo!!! Hoje a mudança conseguiu me consumir e estou à beira de um ataque de nervos. As pessoas me perguntam como eu estou, e de um modo geral, parecem surpresas porque não estou aos prantos. Nem para isso dá tempo, meu povo! É coisa demais para resolver para deixar a peteca cair agora. Quando eu já estiver lá, instalada, aí me dou conta de que mudei de continente sem previsão de volta. Até lá... Empacota, encaixa, separa, joga fora, doa, organiza documento, mais documento, mais documento... Socorrooooo!!!!
Houston, dear, por que ainda não inventaram o teletransporte Brasil - Usa? 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

MURPHY E O CARRAPATO!

Por mais que eu tente descrever aqui, é difícil realmente dizer o quão estressante é mudar de país. A maioria das pessoas, ao saber que estamos indo para os Estados Unidos, tem uma das duas reações: 1- fica excitada, diz que vai ser o máximo, que 'estamos saindo do Brasil na hora certa'; ou 2- fica arrasada, diz que vai morrer de saudades e pergunta quanto tempo ficaremos fora. E todas, sem exceção, perguntam: 'e as cachorras'?
'As cachorras' não descreve minhas filhas. :) Capitu é o sonho da minha infância! Desde que me entendo por gente, queria ter um cachorro. Mas minha mãe morre de medo, então, nunca tive. Quando casei, insisti com o Felipe que deveríamos arrumar um cãozinho, mas ele se recusava a ter cachorro em apartamento. Assim que começamos a procurar casa, arranjamos a Capitu: nós a trouxemos para casa com apenas 32 dias, uma bolinha marrom de pêlo. Dois meses depois, engravidei do Davi e neurotizei; não poderia mais dar atenção exclusiva à Capi, ela ficaria sentida e tal. Quis uma companhia para ela. Duas semanas antes do Davi nascer, meu primo Julio nos deu a Valentina de presente. E assim, antes mesmo de ser mãe, eu já era mãe de uma labradora chocolate chamada Capitu e uma buldogue francesa preta e branca chamada Valentina - ou melhor, Tininha, porque imediatamente a apelidamos. Por isso, quando começamos a pensar na mudança, começamos a pensar em como faríamos para levá-las, porque deixá-las para trás nunca foi uma possibilidade. Tudo se encaminhando direitinho e nós, agora pertinho da viagem, felizes em ver que, mesmo corrido, mesmo enlouquecidamente, seria 'tranquilo' levá-las. Aí então o Sr. Murphy resolve dar o ar de sua graça. Não é que as bichinhas apareceram com carrapatos? :/
O mais triste é que as crianças estavam há dias pedindo para dar banho na Capi e na Tina e nós adiando, querendo dar no sábado. Mas achamos que a Capitu parecia meio tristonha e fomos checar. Não deu outra: carrapatos! Aquele desespero, corrida para buscar remédio, marcar consulta com veterinário e eu e Felipe catando a pobrezinha (Tina só tinha um, sorte!). Felizmente, ela se recupera muito fácil e já está aqui pulando como uma perereca. Mas, olha, te falar: com zilhões de preocupações ainda ter que perder o sono tendo pesadelos com 'a doença de carrapato' foi puxado! :'(
Houston, dear, se por alguma inexplicável razão você não tiver carrapatos, te amarei para sempre! :)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

SAUDADES DA MINHA CIDADE

"Você vai morrer de saudades do Rio, né?" Quando estamos de mudança, todo mundo acaba opinando um pouco. E esta frase, sobre saudades da minha cidade, tenho ouvido frequentemente nestes últimos dias. Mas vou fazer uma confissão/desabafo: eu já morro de saudades da minha cidade, diariamente! :/ E o que é mais triste é constatar o crescente número de amigos que, como eu, sente saudades do Rio de Janeiro. O que houve com esta cidade, minha gente? Eu nem estou falando que sinto falta da Perimetral - e de quando eu conseguia fazer Jacarepaguá-Rio Sul em pouco mais de vinte minutos. Eu sinto falta é... da sensação da 'Cidade Maravilhosa'. Agora, a sensação é que a cidade está entregue. A quem, não sei. Mas sinto falta de abrir o Facebook e ver fotos bonitas da minha cidade com os amigos provocando {cariocas são implicantes, está em nosso DNA, desculpaê!} 'eu moro onde você passa férias'. Agora, abro a rede social para ver imagens de amigos compartilhando roubo de bicicleta {e respirando aliviados porque o amigo continua vivo, olha o cúmulo a que chegamos!}, relatos de furtos, arrastões, etc, etc. Uma crescente e avassaladora onda de violência e abandono vem tomando nossa cidade há tempos, mas, recentemente, parece ter chegado ao seu ápice. Aí passa outro dia e o jornal traz outra pessoa morta porque não tinha cinco reais no bolso... Tá brabo, viu?
Não acho {e isso é opinião, claro} que a redução da maioridade penal seja a solução. Tampouco acho que 'a culpa é do PT!'. Não há 'um' culpado, há uma sequência de erros que nos trouxe ao atual estado {crítico!}. E eu, como muitos cariocas, estou desolada em ver minha cidade tão abandonada...
Houston, dear, sentir-me segura andando por suas ruas definitivamente não será um problema! {E sim, é pesaroso pensar que me sentirei mais segura morando 'longe de casa'. :( }