Tomar a decisão de arrumar as malas e mudar de país não é fácil. Algumas pessoas (como foi nosso caso), tem um bom respaldo, com emprego garantido. Outros, vão na cara e na coragem. Mas, de uma forma ou de outra, o `sair do Brasil`, por incrível que pareça, é por vezes a parte fácil. Por mais doloroso que seja dar adeus a família e amigos, é uma dor tipo `band-aid arrancado rapidamente.` O que te espera depois é que é pauleira. E nem todo mundo aguenta este tranco.
Nestes seis meses no Texas, tenho conhecido diferentes pessoas. Conheci pessoas que moram aqui há décadas e outras que se mudaram depois de mim. Pessoas que moram há menos de um ano e não pensam em voltar e outras que moram há dez e só pensam em voltar. Saudades, todo mundo tem. Mas por que alguns parecem adaptar-se rapidamente à vida expatriada enquanto outros parecem sofrer indefinidamente? E você ? Acha que poderia morar fora?
Hoje, levei meus filhos a uma lanchonete com parquinho. Em poucos segundos, meu filho começou a brincar com um menino que já estava lá. Correram juntos. Brincaram com carrinhos juntos. Desceram o escorrega juntos. Empurraram-se mutuamente, rindo, dizendo que estavam lutando. E aí a mãe do menino o chamou para ir embora. O menino foi até meu filho e disse `eu preciso ir. Até logo, meu amigo!` Davi, meu filho, foi até ele. Eles se abraçaram, enquanto meu filho dizia `até logo, meu amigo!` - ou, para ser exata, `see you, my friend!`:) Eu vi aquela cena e meu deu um estalo. O porquê de algumas pessoas adaptarem-se tão rapidamente a viver fora é simples: elas continuam usando algumas das regras de ouro do universo infantil. E se você está pensando em viver fora, saber agir como uma criança pode ser a diferença entre `the time of your life` para `socorro, o que estou fazendo aqui?` E estas regras são bem simples...
1- Saiba fazer amigos.
Conforme o tempo passa, ficamos mais seletivos e isso vai dificultando o processo de espontaneamente fazermos amigos. Acabamos presos aos amigos de escola, faculdade, trabalho. Mas a verdade é que podemos fazer novos amigos o tempo todo, estando ou não fora do nosso país de origem. A receita é bem simples: analise - do que EU gosto? Sim, do que eu gosto? Fotografia, culinária, pintura...? Se eu pudesse escolher uma atividade que me dê prazer, qual seria? Pense no que te faz feliz. E trate de fazer amigos assim! Faça um curso, workshop, etc, daquilo. Você vai conhecer várias novas pessoas que já tem, de cara, uma coisa em comum com você. E daí você vai vendo os que tem mais coisas em comum, os que `o santo bate`e vai trazendo para sua vida. A chance de dar certo é enorme, pode acreditar.
2- Seja generoso.
As comparações são inevitáveis. `Minha antiga casa era assim, esta é assado.` Nenhum lugar é igual ao outro. Você pode morar numa cidade linda (eu morava!) e achar que sua nova cidade é completamente `bege`(eu achei!), mas a verdade é que podemos ver beleza nos detalhes. Podemos juntar milhões de minúsculas coisinhas para formar um grande amor. Por um lugar,inclusive. Então, mantenha seu olhar generoso.
3- Seja egoísta.
Sim, crianças dividem tudo. Mas brigam pelo brinquedo favorito, certo? Saiba, da mesma forma, ser egoísta. Reconheça dias difíceis, ligue para um velho amigo e desabafe, tire um momento só para você. Saiba que ter saudades é normal e que você tem o direito de ficar triste. Mas não se consuma com isso - que tal comer algo bem gostoso, algo que sua avó fazia? Sinta aquele sabor e lembre-se de um dia feliz. E deixe-se dominar pela alegria desta lembrança.
4- Seja grato.
Crianças são gratas pelas miudezas da vida. Acham graça nos detalhes que passam desapercebidos aos olhos adultos. E isso, infelizmente, é algo que o tempo destrói. Afinal, quem tem tempo de ver que um passarinho fez ninho na árvore do quintal quando a conta de luz veio o dobro do esperado? Quem consegue achar graça numa formiguinha carregando uma folha enorme quando o filho está doente? Esta é a grande tristeza da vida adulta. Aos poucos, deixamos de ser gratos por toda a beleza e grandiosidade que nos cerca. E sempre há beleza e grandiosidade, acreditem! Um dia de sol é um motivo para sorrir. Um dia de chuva é um motivo para sorrir. Porque cada um traz sua cor, seu cheiro, sua graça. Então, o mais importante, seja você expatriado ou não (mas certamente indispensável caso seja ou pense em vir a ser!) é saber ser grato por todas as pequenas sutilezas que nos cercam. Saber agradecer pelas imperceptíveis bençãos diárias é um exercício difícil. E necessário. ;)
Houston, dear, obrigada por me dar mais motivos para ser generosa do que egoísta nas tuas cidades beges, limpas, organizadas. E cheias de gente linda com mil histórias interessantes para contar! :)
Foto: esta imagem apareceu quando gogglei `vida expatriada`. É de um texto bem bacana de um blog que curto bastante. O texto na íntegra e a imagem estão aqui: http://tudosobreminhamae.com/maes-fora-do-brasil/2015/5/5/expatriada-uma-mulher-de-fases
