sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

... e eis que virei a mocinha do filme de terror!

A cena é conhecida. Filme de suspense/terror: um psicopata/monstro solto e uma mocinha que, alheia ao fato, anda tranquilamente, toma um banho demorado, dirige devagar, etc, etc, etc. Do lado de cá da tela, estamos pensando `deusdocéu, como pode ser tão tapada?`. Parece algo de cinema, mas é bem real. Quantas vezes não ouvimos a notícia de um assalto e pensamos algo como 'ah, mas sozinho, à noite, ali, realmente estava se arriscando`. No Rio de Janeiro, temos que admitir, acabamos, sim, pensando isso em algum momento. Quando o problema - vamos por furto, que é muito comum - acontece com alguém que não mora no Rio, aí está armado o circo! 'Ah, é turista, coitado, não tem a manha do carioca!' 
Dos meus 39 anos de vida, a maioria foi passada no Rio de Janeiro. Eu sempre fui aquela que não seria furtada num café em Paris (como não fui) ou no metrô em Nova Iorque (também não fui), porque tinha 'a manha do carioca'. Sempre achei que crescendo numa cidade maravilhosa e violenta como o Rio, eu estava 'preparada' para não passar por nenhum sufoco, em lugar algum. Então, há sete meses e meio, me mudei para o Texas. E esta semana eu percebi, assustada, que eu virei a mocinha do filme de terror.
Dia de semana, tarde da noite, e eu percebo que o queijo acabou. As crianças já estão indo dormir e eu aviso ao marido que vou até o mercado. Chego lá com o estacionamento já meio deserto e entro para fazer as compras. Quando eu estou de volta, próximo ao carro - que está num lugar um pouco escuro - aparece um homem, detrás do meu veículo. E a minha primeira reação é... dar boa-noite!
Sim, para um carioca, ler isso deve dar até um frio na espinha. Daria na minha, também! Mas foi exatamente isso o que aconteceu: dei boa noite ao desconhecido que surgiu detrás do meu carro, no estacionamento deserto, tarde da noite. E ele? Ele sorriu para mim, aproxinou-se e disse 'e dá para acreditar que estamos no meio do inverno, numa noite linda destas? É mesmo uma ótima noite, m'am! Aproveite o resto dela!' Eu sorri de volta e disse 'você também!' e entrei calmamente com minhas sacolas, coloquei o cinto de segurança sem pressa e saí do mercado em paz. 
Sim, há sete meses e meio, eu jamais pensaria que eu faria algo assim. Eu mesma me surpreendi com minha reação - como assim, não dei meia volta e retornei ao mercado? Como não joguei as sacolas? Como não... carioquei? E a resposta é simples e triste.
Estamos tão acostumados à violência do Rio de Janeiro que não nos damos conta do quanto ela nos transformou em sobreviventes do caos. Olhamos para todos os lados, desconfiamos das pessoas, avançamos os sinais à noite. Ficamos sempre à espera de um perigo oculto. E isso é péssimo! É desgastante, é apavorante! A vida inteira eu agi assim, sempre tentando prever algo ruim que pudesse acontecer no minuto seguinte. E aí me mudei para um lugar em que eu não preciso mais agir assim. Agora, eu consigo entender os turistas que são assaltados no Rio. Eles não estão preparados para a violência diária da cidade mais linda do mundo.
Nestes sete meses e meio de vida texana, duas experiências me marcaram muito. Uma, ainda no meu primeiro mês aqui, foi quando eu fui parada por excesso de velocidade. O guarda me passou o maior sermão, já com o talão na mão e eu ... fui absolutamente honesta. Disse que tinha acabado de chegar, que não sabia que existia horário escolar, e que estava até constrangida diante do meu erro. O guarda me olhou fundo nos olhos e disse 'você me dá a sua palavra que nunca mais cometerá este delito?' Eu dei. Ele não me multou. A outra, contei aqui mesmo ( http://houstonhaveaproblem.blogspot.com/2015/11/aceito-fiado.html ) , sobre o prestador de serviços que também confiou na minha palavra. Em um lugar onde a sua palavra é levada a sério, você se sente seguro. Porque você ainda tem voz. 


Houston, dear, obrigada pela minha paz de espírito.Sem perceber, eu paro sozinha, à noite, nos sinais vermelhos, sem olhar para os lados. Eu estaciono o carro em lugares desertos sem medo. Eu voltei a andar despreocupadamente, sem achar que o perigo me espreita. E isso não tem preço. 

Rio, meu amor, nestes dias, eu tenho chorado tanto por você... A saudade das pessoas aumenta, mas as notícias que chegam são sempre tão ruins que vai me dando uma tristeza sem fim. Espero que cuidem melhor de você.



*Tem alguém que não conhece esta foto? A clássica cena de Janet Leigh no chuveiro, no filme Psicose, de Alfred Hitchcock, é um marco neste clássico do suspense. Um dos cineastas favoritos do meu pai, que passou para os 3 filhos o fascínio por este genêro.