Quando a gente pensa em mudar de país, dá um tremendo frio na barriga. Passam mil coisas pela cabeça e a 'adaptação à nova cultura' é algo que fica sempre martelando. Vamos nos adaptar bem? Rápido? Não temos como saber de antemão, então, acabo conjecturando. Fico pensando nas coisas parecidas, mas penso muito mais nas diferenças culturais. E no sábado, me vi pensando no quanto algumas das coisas que mais estranharemos de início podem vir a ser as que mais gostaremos, eventualmente. E tudo isso por conta do 'personal space'.
Há alguns anos, um casal de amigos mudou com a filha pequena para os EUA e, pouco depois, tiveram outra filha. Moraram lá por alguns anos e voltaram ao Brasil. No que seria o último dia de aula das filhas, a mãe disse para a mais velha: 'filha, dá um abraço bem apertado nos seus amigos, porque você vai passar um bom tempo sem vê-los'. A menina respondeu 'não posso, mamãe, porque senão eu invado o personal space dos amigos!'. Mudaram-se para o Brasil e, em seguida, a menina reclamou com a mãe, dizendo que os amigos não respeitavam o 'personal space' dela. Eu ri muito desta história, na época.
Numa tradução literal - e porca- 'personal space' é 'espaço pessoal'. Em bom português brasileiro, isso quer dizer: absolutamente nada! Pelo menos aqui, no Rio de Janeiro, 'personal space' não significa nada: somos invasivos, 'entrões'. Nos metemos na vida uns dos outros, damos pitacos. Somos de abraços, beijos, tapinhas nas costas. Somos de muito papo, muito toque, muito muito. Ou seja: não há espaço pessoal respeitado. E isso é levado estranhamente a sério por algumas pessoas. No sábado, dentro do meu condomínio, um dos vizinhos resolveu fazer uma festa junina. Até aí, nada demais. Não fosse um pequeno detalhe: resolveram soltar fogos, tarde da noite. Onze e pouco da noite e parecia final de campeonato aqui na esquina. Resultado: Lara acordou em pânico, coração acelerado, chorando assustada. Demorou a dormir. E eu fiquei pensando no quanto este vizinho tinha sido invasivo, no quanto a festa dele perturbou toda a vizinhança e no quanto isto foi errado. Eu realmente fiquei com ódio da irresponsabilidade. Todos os cachorros da rua latindo, desesperados com o barulho. As crianças chorando. Isso, à meia-noite. Faltou, para mim, bom- senso, o 'meu direito termina onde começa o do outro'. Faltou a percepção do 'personal space', o 'eu não posso invadir seu espaço.'
Nesta madrugada, entrou algum bicho aqui em casa - não sei se foi gambá, passarinho ou morcego. O que sei é que no meio da noite, foram as nossas cachorras a dar trabalho, latindo alto e perturbando. Felipe desceu correndo prendeu as duas, que pararam de latir no mesmo instante. Sim, sim, aqui nós já temos, mesmo sem sentir, o entendimento e a necessidade do 'personal space.' Houston, dear, esta parte não será um problema. :)
* os quadrinhos são do Dilbert, que meu marido ama! O que eles estão dizendo:
1o. quadrinho: Uh-oh, Nardo está chegando. Vou cair fora daqui.
2o. quadrinho: - Uh, oi, Nardo.
- Na velha nação, não tínhamos o que vocês chamam de 'personal space'.
3o. quadrinho: - Tire suas mãos dos meus bolsos.
- Oh, eu entendo. Eles são para seu uso exclusivo, certo?

Amei!!! Cada um no seu personal space, por favor! Kkkkkkkk...
ResponderExcluirNé? Hahahahahaha
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