quinta-feira, 7 de julho de 2016

UM ANO!!!!

E então, chegamos ao 7 de julho.  Há exatamente um ano, desembarcávamos com nossos dois filhos, duas cachorras, oito malas grandes - e bagagem de mão - no aeroporto internacional George Bush, em Houston. Éramos uma mistura de sentimentos: o medo e ansiedade diante do desconhecido fundiam-se ao friozinho bom na barriga e ao esorriso na cara. Não sabíamos, 365 dias atrás, o que nos aguardava na nossa nova vida. Mas viemos de peito aberto e com a certeza de que seríamos felizes no Texas. Estávamos certos. :)
A sensação, hoje, é de que do 07 de julho de 2015 ao 07 de julho de 2016 vivemos uma década num piscar de olhos. Tanta coisa aconteceu que não parece ter sido apenas um ano. Lembramos tanto do que ficou para trás que não parece já ter sido um ano. É algo como ter um bebê - intenso, com mudanças praticamente diárias. Rapidamente o recém nascido está ensaiando os primeiros passinhos e os pais, assustados, não acreditam na passagem do tempo. 
Hoje, tudo o que quero fazer é agradecer. Primeiro, como minha avó me ensinou, a Deus, por todas as graças concedidas. Depois, a tanta gente que não dá para começar a falar sem me emocionar... :) São muitos amigos. Muito mais do que esperávamos. Perdoem-me se esquecer alguém, não terá sido por mal. Vamos lá, muito obrigada...
Às minhas companheiras de: almoço fugido durante a semana, happy hours das meninas, mimosas dos finais de semana, missas de domingo. Glenia, Renata e Patricia - vocês são a melhor parte dO Houston! Nos deboches, nas risadas, no jeito sacana (que quem não conhece acha que é implicância), vocês são minhas partes, minha tribo. Amo (quase) mais que toddy light!
Ao casal Rogério e Lara: como agradecer toda a amizade e apoio? Vocês são, disparado, a nossa referência. Sempre nos vemos pensando em vocês como exemplo a ser seguido. Que vocês continuem sempre estas pessoas maravilhosas que emanam amor. E que possamos desfrutar desta energia boa por muitos e muitos anos!
Às mães dos amigos. Que delícia é ser mãe e poder ganhar amigas por conta dos seus filhos. :) Fiz uma nova rede de amizade materna por aqui e, para não me perder citando todas, vou resumir num trio de ouro: Germayne, Priscilla, Micaelli. Vocês são mulheres incríveis e eu fico muito feliz de tê-las por perto! (ok, eu sei: a Germayne estudou com o Felipe e, tecnicamente, é assim que a conheço. Mas como o Davi quer casar com a Claire, acho que nossa amizade pode se definir mais pelas crianças que pela UFRJ. ;) )
Ao pessoal da bike. Uma das coisas bacanas que o Rogério fez foi levar o Felipe de volta para cima de uma bicicleta. Com isso, ele reavivou um hobby, voltou a praticar um esporte que gosta e ganhamos um grande grupo de pessoas queridas e divertidas. Que venham mais e mais milhas! :)
Ao casal Paty e Wagner. Sim, vocês, enquanto casal, nos ajudaram muito. Quando ainda não tínhamos ninguém, já tínhamos vocês! E eram vocês a ficar com as crianças quando nos enrolávamos... Mil obrigadas pelas ajudas!!! Como já agradeci à Paty, fica agora também meu beijo especial para o Wagner. 
Ao casal Tati e Robert. Sempre de sorrisos abertos e alto-astral: amamos estar com vocês. Devemos, aliás, fazer isto com mais frequência!
E, claro, aos nossos velhos amigos...
Antes de vir, sabíamos que tínhamos uma família no Texas. Não moramos tão perto quanto eu gostaria, mas é perto o suficiente para estarmos sempre juntos. Jade, Bob, Nelson, Nolan e Macho: amamos vocês! Obrigada por serem a certeza, antes mesmo de desembarcarmos, que estaríamos cercados de amor aqui.
Last, but not least, o mais perto que chegamos de ganhar na loteria (putz, estão mal, hein? Consigo ouvi-los dizendo! Hahahahaha): a família Aymone! Vocês terem vindo para cá foi simplesmente incrível, foi como trazer um pedaço na nossa vida no Rio para pertinho da gente. Tê-los aqui tornou nossa vida texana ainda mais divertida e animada. Obrigada pelas ínumeras risadas. E que venham muitas outras!

Foi um ano maravilhoso, com pessoas especiais e momentos ímpares. Foi o melhor começo que poderíamos ter no estado da estrela solitária. Que venham outros: que sejam muitos, que sejam prósperos, que tragam mais gente bacana e coisas boas. E que sigamos com a tranquilidade de que, sim, aqui é um lugar para ser feliz. :)


FOTO COLAGEM: obra do maridão! :) 



terça-feira, 26 de abril de 2016

A,B,C: já sei ler!

Quando começamos a pensar em vir para os Estados Unidos, um turbilhão de emoções me invadiu. Eram várias pessoas nos incentivando, dizendo no que iríamos ganhar com a experiência de morar fora. Eu só conseguia pensar no que iríamos perder. Ficaríamos longe: da família, dos amigos, da nossa casa, da nossa terra, da nossa língua. Longe. Eu me lembro o dia em que, particularmente sensível, me dei conta de que o Davi seria alfabetizado em inglês. Com cerca de 5 anos e meio quando chegamos e considerando o tempo mínimo que passaríamos aqui, ele moraria no Texas durante sua alfabetização e, portanto... Lágrimas rolavam dos meus olhos enquanto eu juntava livrinhos infantis da Mary e do Eliardo França, os mesmos com que eu comecei a juntar letras em sílabas e depois em palavras, frases e histórias completas. Aquilo me doeu tanto! Imaginar que meu filho, MEU FILHO!, não seria alfabetizado em português. Me lembro de passar alguns minutos sofrendo por isso antes de realizar que a Lara, ainda mais nova, teria o inglês como língua materna. Foram dias pensando e sofrendo com isso.
Como eu esperava, chegamos, começamos a nos adaptar e, pouco depois, as crianças estavam na escola. Em pouco tempo, Davi começou a trazer folhinhas em que ele deveria treinar caligrafia. A,B, C. Depois, começou a juntar as letras. Logo, estava fazendo os sons das sílabas - com o sotaque texano mais lindo do mundo! - e então... palavras. No começo, aquele lance meio carteado, a professora mostra a palavra e a criança memoriza. Mas aí, num dia, parados num sinal, devagar e com segurança, ele leu 'tu-r-n lef-t. Turn left!' Eu me lembro da sensação de surpresa e orgulho, eu e maridão nos olhando, sorrindo, cúmplices. Aquele minuto parados num sinal foi o primeiro de muitos, e, agora, ele já pega pequenos livros e lê.
 Alfabetização em português? Sim, terá. Ele pergunta sobre os livros brasileiros, compara os sons, é curioso e interessado. Com o tempo, será também alfabetizado na nossa língua, mas agora é a hora de concentrar na escola, no lugar em que ele vive. E seguimos fortes aprendendo a língua inglesa.
Vendo meu filho desbravando os livros deu-me ânimo de, também eu, encarar livros escritos em inglês. Desde que cheguei, já li muitas revistas e jormais, livrinhos infantis, histórias em quadrinhos. Mas pegar um romance e ler, do começo ao fim, eu ia adiando. O motivo? Nem sei. Não sei se era preguiça, por achar que seria difícil. A verdade é que eu estudei inglês durante muitos anos - fiz o curso da Cultura Inglesa - e, nesta época, li muitos romances em inglês. Lembro de ter lido 'Animal farm' primeiro em inglês, por exemplo. Só que isso foi quando eu estudava inglês e só de formada tenho vinte anos. Continuei, sempre, lendo alguns artigos, histórias curtas, mas não mais livros. Até ver meu filho tão orgulhoso do seu A,B,C e resolver tentar novamente. O livro escolhido, que ganhei de presente da minha amiga-parceira-no-crime Glenia Aguiar (do MA-RA-VI-LHO-SO http://www.houstonbyus.com/ ) foi o Love Antony. A história - triste e linda - conta a trajetória de duas mulheres em Nantucket. Uma acaba de se separar do marido, que a traiu. Outra está tentando sobreviver à morte do único filho, um autista não verbal de nome Antony. Eu sempre digo o quanto amo livros 'sessão da tarde', que distraem e divertem. Este foi sessão-da-tarde-com-caixa-de-lenços-do-lado. A leitura fluiu melhor do que eu esperava. Aprendi novas palavras, mas, no geral, me virei muito bem, obrigada, sem precisar de dicionário. E a sensação que fica? Um misto de vitória (opa, já posso fazer estragos na minha 'Livraria da Travessa' daqui!) e orgulho. De repente, sem que eu me desse conta... A,B,C, eu e Davi já sabemos ler! :)

Houston, dear, prepara tuas livrarias que eu tô chegando! 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Forças da natureza

É inegável que, diante de um desastre natural, sentimo-nos mínimos. Quando a natureza resolve mostrar sua força, nós, meros humanos, temos que lidar com todas nossas limitações. 
Esta semana, em Houston, foi o reconhecer da nossa impotência. Com tempestades e avisos de tornado, a cidade e seu entorno, completamente planos, ficaram debaixo d'água. Muitos perderam casas, carros. Na cidade em que estou, o distrito escolar suspendeu as aulas durante toda a semana, devido à dificuldade de locomoção por parte de alguns. E então, ontem, na minha cidade (sempre será!), no Rio de Janeiro, uma forte ressaca do mar derrubou uma parte da ciclovia de São Conrado, inaugurada há poucos meses. Outro desastre natural... ou não?
Sim, quando a natureza resolve mostrar do que é capaz, nós vemos como somos fracos. Entretanto, há formas e formas de se lidar com desastres naturais. Desde que começaram as chuvas fortes por aqui, recebo emails e mensagens várias vezes por dia, dizendo como está o tempo, qual a previsão para as próximas horas, onde está alagado, onde não devo ir. Recebo, também, orientações de como agir em caso de ficar debaixo d'água, para onde ir em caso de tornado, para onde ligar para pedir ajuda imediata. E eu até agora não faço a mínima ideia de como conseguiram meu email e telefone! Aparentemente, ao pagar uma única conta que seja, você tem seu endereço verificado e pronto: sabem que você mora naquela região e, em caso de necessidade, entram em contato. Apesar do exato local onde moro não ter tido mais do que uma poça na frente da casa do vizinho (que serviu de brincadeira para as crianças da vizinhança), a situação foi bastante crítica à nossa volta. Ainda assim, para definir de uma maneira simplista, eu não me senti desamparada em momento algum.
Damos então um pulinho na minha terra. Feriado, as pessoas saem para andar de bicicleta, correr e aí bate uma onda forte e... desaba uma ciclovia construída à beira-mar. Não consigo expressar como me senti, mesmo daqui. Eu mal dormi esta noite, minha cabeça girava! Como que uma obra feita À BEIRA MAR não conta com a força do mar? O que dizer das pessoas que fizeram e executaram este projeto? O que dizer dos nossos governantes, que AUTORIZARAM a obra e puseram em risco a vida de seus governados? Vi muita gente dizendo que tem vergonha das pessoas que estão comandando o Rio de Janeiro atualmente. Eu não tenho vergonha. Eu tenho asco, eu tenho raiva. A sensação, hoje, é de revolta. E na inevitável comparação, minha cidade texana ganha de lavada: aqui, até a natureza usa suas armas pesadas e, como bom cowboy, dispara a artilharia sem dó. Mas você é avisado, o tempo todo, que pode estar em risco, é orientado onde pode ou não ir, é, por vezes, aconselhado a ficar em casa (empresas liberaram funcionários; jornalista pediu ao vivo que, se coagidos a ir ao trabalho em condições perigosas, as pessoas informassem os nomes de seus empregadores para que ele denunciasse). Você não sai feliz de casa, num feriado, para aproveitar o sol é levado por uma onda. Esta insensatez sem tamanho revolta e angustia.

Houston, dear, obrigada pelo alarme na televisão, que interrompe o programa para avisar que voltará a chover forte. Sei que houve vítimas da chuva aqui e meu coração está partido por elas, mas também sei o quanto incontáveis vidas foram salvas por conta dos alertas dados.


Rio de Janeiro, meu amor, hoje novamente choro por você. Que Deus conforte as famílias que perderam seus entes queridos neste absurdo desmedido. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Brincando no Texas

Brincadeira é brincadeira em qualquer lugar do mundo e, assim que chegaram, Davi e Lara logo aprenderam a dizer 'vamos brincar de pique-pega'. E quanto aos brinquedos? 
Quando pensamos em brinquedos americanos, forçoso admitir, a primeira coisa que vem à cabeça são legos, barbies, bonecos da Disney, videogames. Eu vim para cá com esta imagem na cabeça  e encontrei todos estes artigos, de fato. Mas também descobri muita coisa interessante, além do 'esperado' . Na terra do 'tem de tudo', a criatividade tem vez.
A vasta gama de brinquedos montessorianos deixa os nossos poucos exemplares no chinelo. Brinquedos 'waldorf' são facilmente encontrados. Toda espécie de brinquedo de madeira, de tecido, natural, você acha. O estímulo ao lúdico está presente por todo lado e nesta disputa pelo mercado infantil, as crianças saem ganhando.
Hoje, com chuva forte e sem aulas, meus filhos estão em casa. Já desenharam. Poderiam ter pintado, esculpido em massinha ou ter colorido a giz, dentro de casa - os produtos são 'altamente laváveis', conforme o rótulo. E são mesmo: tudo sai com um paninho e água, incrível! Mas hoje escolheram 'escavar' e estão na garagem, com uma placa de gesso, escavando um fóssil de T-rex. Nesta fase 'dinossauros' em que estão, já escavaram alguns, já puseram ovo para crescer e já montaram fósseis. O mais bacana é que depois dá para fazer uma pesquisa, mostrando como era aquela espécie, do que se alimentava, como vivia e etc. Não a toa, a ida ao museu de história natural é um dos programas preferidos da casa.
Sim, aqui o 'apelo da maçã' é assustador e as crianças tem o direito de brincar no ipad na escola. Mas há um outro lado bacana que muitas pessoas não conhecem. Por isso, uma dica: na próxima viagem aos EUA, programe-se  para, antes de ir à loja da Disney, parar para conhecer alguns itens 'diferentes'. Com certeza as crianças vão curtir muito! ;)

Houston, dear, obrigada pela infância 'sem maçã'! Os blocos de madeira tem que sempre vir antes de tudo. :)

sábado, 16 de abril de 2016

DIY: descobrindo talentos no Texas

As letrinhas DIY são a abreviação da frase 'do it yourself', o nosso 'faça você mesmo'. E aqui nos EUA, muita coisa fazemos por nós mesmos...
Quando narro nossa vida aqui, muita gente deve achar que é tudo muito fácil. Primeira coisa: ficar longe da família e dos amigos é difícil. Segunda coisa: nós viemos com uma situação 'ideal', se é que isto existe. O Felipe foi convidado a trabalhar aqui e a empresa pagou nossas despesas de mudança. Só que o conteiner que trouxe nossas tralhas demorou 2 meses para chegar e nós quisemos ter 'nossa' casa antes disso. Ou seja: mudamos e tivemos que comprar tudo novo. E aí, a não ser que a reserva de dinheiro seja muito boa (não era nosso caso), você consegue comprar tudo bacaninha, montar o cafofo, escolher carros legais. Mas... fica tudo na conta e não sobra dinheiro para os luxos. O que é luxo? Bom... ir ao salão de beleza é luxo, né?
Eu me lembro que tive uma diarista com unhas lindas, sempre bem feitas. Ela dizia 'minha vizinha é manicure e me faz um precinho camarada'. E toda semana ela estava com as unhas perfeitas. É um pouco da nossa cultura: no Brasil, a maioria das mulheres curte fazer as unhas, depilação, cabelo, etc. E da mesma forma que tem salões espetaculares, com preços nas alturas, tem sempre um salãozinho na esquina, com o tal precinho camarada. E todas seguimos de unhas feitas.
No Texas, o preço da energia elétrica é ridículo comparado ao que pagávamos no Rio de Janeiro. Assim como gás e água. Gasolina tem preço em conta, comida, idem. Mas os 'superfluos' saem mais caros. Então, os 'gastos no salão' pesam no bolso. Por isso, como disse, a não ser quem esteja com uma boa graninha reservada, quem acaba de se mudar precisa segurar a onda nesta pequenas coisas. E aí, como se virar?
Bom, do ponto de vista prático, eu podia 'fazer a Ohana anos 80' e abandonar a depilação, por exemplo. Mas eu não queria seguir por aí. Da mesma forma, poderia optar por não mais fazer as unhas - mas, vai, não dá até uma melhorada no humor ver as unhas bonitinhas? :) Ou seja, a solução, a curto prazo, era apenas uma, usar as 3 letrinhas daí de cima e fazer tudo eu mesma.
No Brasil, eu já tinha experimentado ceras caseiras de depilação. Achei tudo caro e complicado. Por isso, era cliente das 'menos pelo' da vida. Aqui, confesso, fiquei ressabiada ao compar cera e tentar me depilar. Ao contrário da minha experiência anterior, no entanto, foi tudo bastante prático. Menos uma coisa a me incomodar, pronto!
No quesito 'fazer as unhas', eu já tinha alguma experiência - todas temos ao menos um alicatinho em casa, né?  E ao descobrir os produtos daqui, fui sem medo testar.  O 'gel que dissolve as cutículas em 15 segundos', para os padrões brasileiros, deixa rastros. Mas aí o bendito alicatinho arremata, né? :) 
Claro que fazer serviços de beleza, com um profissional especializado, é sempre melhor. Eu já fui a diversos locais aqui, mas aprendi a eleger prioridades e deixar o salão para ocasiões especiais. No dia a dia, faço eu mesma, Como é o esquema da mulherada daqui. 

Se você está programando uma viagem para os Istêites, pare numa Walgreens, CVS ou a farmácia mais próxima de você e leve algumas coisitas para casa! A linha da Sally Hansen tem muita coisa boa para fazer as unhas. Veet, aqui, é uma imensidão de produtos, para tudo que é tipo de pele e necessidade. Dê uma olhada com calma e depois tente fazer você mesma. Vai ser, no mínimo, uma experiência divertida ver que dá para fazer sozinha tantas coisas que estamos acostumadas a delegar. 


Houston, dear, obrigada pelo preço da energia. Salão dá para reservar às datas comemorativas, mas ficar sem ar condicionado... Isto não dá, não! :D

terça-feira, 12 de abril de 2016

Uma nova velha infância.

Quando você pensa em infância, qual a primeira coisa que te vem à cabeça? Se a sua foi um pouco parecida com a minha, vem mil coisas boas ao mesmo tempo: brincadeiras, amigos, sons, cores, sabores, cheiros. E tudo que eu vivi - ou que me lembra - a minha infância tem um gostinho especial. Por isso, naturalmente, eu pensei em passar parte do que vivi na primeira idade para os meus filhos. Sim, este sempre foi o plano. Daí você muda de casa, de país, de continente. Fuén, fuén, fuén! Seus filhos passam mais tempo ouvindo outra língua e você ainda tem pretensão de passar adiante uma parte da sua história?
Sim, admito: mudar de país nos faz rever todos os nossos conceitos, refazer todos os planos. O que, aliás, é algo bastante interessante. Esta ideia de recomeço, embora um pouco assustadora, é libertadora. Por que não voltar a seguir um velho sonho? Por que não mudar o que pensamos? Podemos (e devemos, aliás!) fazer isto o tempo todo, mas acabamos nos acostumando a seguir com nosso velho-bom-e-seguro-planejamento-inicial. Aí somos forçados a uma mudança - e nos deparamos com elas o tempo todo! - e pronto! Ou aprende a dançar conforme a música ou... dança! :)
No meu plano de 'quero que meus filhos tenham um tantinho da minha infância', o cenário não era uma casa de tijolinhos no Texas. No entanto, aqui estamos. E eu resolvi... adaptar o plano!
Uma das melhores lembranças da minha meninice são os livros. Não apenas as histórias, vejam bem: os livros! Eu lembro do cheiro dos livros. Eu lembro das cores dos livros. Eu lembro de, inicialmente, ouvir aquelas histórias e ter aquilo como parte de mim. Eu lembro das primeiras vezes em que comecei a ler aquelas histórias sozinhas. Eu lembro da sensação, única e que nunca perdi, de realização ao terminar um bom livro. Por isso, quando nos mudamos, boa parte do contêiner que trouxe nossa bagagem era de livros. E muitos, muitos livros favoritos. Vários parentes e amigos mandaram livros novos, renovando nossa bibliotequinha. Mas eis que o Davi está na escola e um belo dia ele começa a aprender letras, depois sons. Começa a juntar os fonemas e sem nos darmos conta, um belo dia... ele está lendo. Em inglês! Já sabe muitas palavras, faz frases curtas e lê livros simples. Tudo, claro, nos moldes da Gringoland, com sotaque texano e tudo! E aí, não teve Ruth Rocha, Fernanda Lopes de Almeida e Ana Maria Machado que dessem jeito na questão: o moleque queria ler, e queria ler in english!
Se uma das melhores coisas da minha vida é a paixão por livros e histórias, não iria nunca privar meus filhos disto! Então, devagar e sempre, a nossa bibliotequinha começou a ter títulos em inglês. E mais e mais e mais. Na hora de dormir, agora lemos ao menos um livro em cada língua. E meus filhos já corrigem o meu sotaque! (o qual TODOS os nativos que ouvem dizem que é lindo demais, que adoram o fato dos brasileiros falarem cantando! :) )
Tem livro infantil brasileiro de sobra por aqui! Tem também historinhas de folclore, paçoca e 'A arca de Noé' tocando no carro. Mas temos também cada vez mais livrinhos americanos na casa. Porque se dá para gente aproveitar um pouquinho do melhor dos dois mundos... aproveitemos! ;)

Houston, dear, obrigada por me proporcionar uma nova infância! Tantos novos livros a serem descobertos está sendo uma experiência incrível!


Os livros: 'A margarida friorenta' está ilustrando esta postagem porque eu me lembro exatamente como me senti (um misto inexplicável de alegria e tristeza) ao ler este clássico pela primeira vez. E foi também um dos primeiros livros que li sozinha. Da Fernanda Lopes de Almeida - aquela mesma, de 'A fada que tinha ideias', lembra? :)
'I am a bunny', do Richard Scarry, caiu no meu pé. Literalmente: estava dando uma olhada em livros, ele estava atrás de um, escorregou e caiu em cima de mim. Ao pegá-lo para devolver à prateleira, fiquei absolutamente encantada com as imagens e acabei comprando-o. Foi o primeiro livro infantil que comprei por aqui e o li muitas vezes para o Davi e a Lara. Tantas que, no aniversário dela, usamos imagens deste livrinho para decorar a casa. E ficou lindo e ficou uma lembrança gostosa de infância, como eu queria... 

quinta-feira, 31 de março de 2016

A vida não é feita só de momentos felizes...

A minha intenção, ao começar o blog, era compartilhar nossa vida com os amigos que deixamos no Brasil, já que seria inviável mandar emails/cartas para todos com a frequencia que gostaria. Tento ser o mais honesta possível ao escrever, contando como tem sido nossa vida na Gringoland. Tem sido mais fácil e prazerosa do que eu imaginava, o que se reflete no que escrevo. Talvez por isso, venho recebendo com frequencia mensagens de amigos que pensam em se mudar, questionando como é a vida expatriada, as dificuldades e tal. Pensei muito se escreveria sobre isso. Achei que seria desonesto não escrever. Porque a vida não é feita só de momentos felizes. E quando você está fora e o momento é triste... Bicho, é triste para cacete!
Quando o Felipe recebeu o convite para virmos, no final de 2013, gelei! Eu só pensava na minha avó, com 90 e muitos e enfraquecendo dia a dia. Já comentei num post anterior que, graças à demora na transferência, eu tive a oportunidade (obrigada, meu Deus, para sempre obrigada!) de estar ao lado da minha avó, segurando sua mão e chamando por nossa Santa Mãe, Maria, até o momento em que ela dormiu para mão mais acordar neste mundo. Quando viemos, deixamos para trás toda nossa família e amigos e, claro, estávamos sujeitos a "perder"qualquer um deles. Só que eu não pensava sobre isso. Não dá: se você pensar nos pormenores de uma mudança deste tamanho, ou surta ou desiste! Enfim, com a certeza de que todos ficariam muito bem, obrigada, viemos.
Uma das minhas primas já estava no meio de uma luta quando enfim nos mudamos. Antes de vir, eu a disse que se precisando de algo, contasse comigo. Ela disse que se tivesse algo, pediria. Alguns meses depois de estar aqui, ela me pediu uns complexos vitamínicos. Comprei e mandei pela primeira pessoa que estava indo para o Brasil. Quando a visita seguinte estava vindo, escrevi: "está precisando de reposição? Posso mandar mais!" Ela disse que o médico estava mexendo na medicação, que não precisava e tal. Disse que se algo mudasse, me avisaria. 
No começo de março, outra prima me ligou. "Ela piorou muito. Estou ligando para você estar preparada." Como a gente se prepara para despedir-se de alguém, estando longe? No meio do Spring Break, depois de um dia em que brincamos muito em San Antonio, toca o telefone com a notícia. Minha prima, depois de uma longa batalha, em que desafiou o tempo inicial dado pelos médicos, em que manteve-se positiva e sorridente, em que deixou a todos orgulhosos de sua garra, enfim, perdeu a guerra contra o câncer. 
Independente do quão bom seja morar fora, numa hora destas, estar longe, é devastador! O não poder despedir-se. Os abraços que não dei naqueles que ficaram. O chorar sozinha: tudo isso é muito, muito, muito doloroso. 

À minha prima Cristiane, com quem eu tinha laços mais fortes do que os de sangue (família de sangue não se escolhe, a de afeto, sim! E ela e eu fomos criadas como primas, com famílias unidas por laços de amizade e carinho que já estão na terceira geração), eu deixo o meu muito obrigada por tantas memórias lindas e pelo sorriso mais sincero que alguém pode dar e guardarei comigo para sempre!

A todos aqueles que pensam em se mudar, saibam disso: na hora em que é bom, é bom. Mas na hora em que fica ruim, fica absurdamente ruim!


Houston, dear, obrigada por teu hospital e centros de pesquisa. Que daqui saia, um dia, a cura para esta doença infeliz. 

quarta-feira, 30 de março de 2016

Spring break!


Em março, as escolas param uma semaninha por aqui. Não, não é o carnaval - é o Spring break. O recesso da primavera é rápido, mas dura o suficiente para que os estudantes descansem/farreiem um pouco. No nosso caso, resolvemos aproveitar a semaninha de férias para dar uma volta, viajando com amigos. No Rio de Janeiro, quando se tem uns dias de folga, vamos para a "Região dos Lagos". Aqui, decobrimos um lugar bem pertinho que virou nosso xodó. Fomos em outubro e voltamos no recesso à nossa nova "Búzios"(quem não tem cão...).
San Antonio fica a cerca de duas horas e meia da nossa cidade. Lá, vemos um tanto da história texana de pertinho, ao entrar nas missões e descobrir como se deu a guerra entre México e os Estados Unidos sobre a quem pertencia o estado. Mas não é só isso: a cidade é boemia, com muitos lugares bacanas para descobrir. Desta vez, antes mesmo de chegar à cidade, paramos no caminho para explorar umas cavernas naturais. Espetacular! Me senti em Minas Gerais, em tantas grutas que já fui por lá... Claro que, sendo nos EUA, além de ter uma super estrutura (guia pelos corredores, corrimão, avisos sobre o perigo de escorregar), tinha restaurante, parquinho e gift shop do lado de fora. Ignoramos o exterior e nos deliciamos com aquela água caindo do teto, as formações rochosas, a escuridão, o cheiro. Um passeio inequecível. Já em San Antonio, revimos as missões, passeamos por feirinhas e aproveitamos o Riverwalk. O Riverwalk é um rio que fica embaixo da cidade, com calçadas largas cheias de restaurantes e lojas. Pegamos um barquinho que desce o rio e vamos passando por vários pontos da cidade, vendo tudo de baixo para cima. Já conhecíamos, mas sempre vale a pena voltar.
Saindo de San Antonio, dirigimos cerca de quarenta minutos para passar o domingo em uma cidadezinha alemã, Gruene. Ficamos curtindo um show de música (country, claro!) num lugarzinho bacana - uma adega, em que compramos o vinho e ficamos no lado de fora, na grama, curtindo a música e a bebida. Neste dia. São Pedro nos presenteou com um dia de sol e brisa fresca, então, foi perfeito para aproveitarmos nosso programa. 
De volta, passamos mais um dia curtindo as atrações de San Antonio e seguimos para outra cidadezinha alemã, Fredericksburg. Tivemos a má ideia de contar para as crianças que era "a cidade do Frederico". Quando souberam que o primo não estaria lá, ficaram decepcionados. :/ (aprendam, pais! Eles sentem falta da família o tempo todo - é preciso cuidado com o que se diz!). Mas, enfim, chegamos e todos adoramos o clima "cidade minúscula do interior do Texas". Charmosa e mínima, a cidade tem suas atrações: vinícolas e cervejarias (não foi por acaso que a Glenia escolheu irmos para lá! Hahahaha). Então estávamos, no dia de São Patrício (nos EUA comemora-se o San Patrick's day. Normalmente, bebendo-se como os irlandeses), conhecendo uma vinícola bem gostosinha, fazendo degustação de vinhos. Emendamos numa degustação de cerveja e... viva San Patrick! Bebemos à sua honra, camarada! :)
Depois de dias de muita andança, muitos lugares, sabores e cheiros novos, voltamos para casa. Já programando a próxima vez em que poremos o pé na estrada!


Houston, dear, obrigada pelas estradas tão bem asfaltadas, que ainda teremos o prazer de desvendar do começo ao fim! Obrigada pelo teu povo curioso e amigável, que numa cidadela em que todos parecem alemãs, receberam com sorrisos e perguntas a turma brazuca barulhenta!

Aos nossos queridos amigos, Glenia, Fellipe, Bibi e João, obrigada pela companhia no primeiro de muitos Spring Breaks! Aos nossos amigos Micaelli, Andrea, Pedro e João, obrigada por nos apresentarem à Gruene! À minha sogra, Célia, mais uma vez: obrigada por ter topado entrar nessa conosco! Sua presença deixou nossa semana mais especial. 


Fotos, fotos, fotos: Felipe, eu, Davi e Lara fazendo graça do lado de fora de um pub no Riverwalk. Na segunda, Missión San José: esta capela passa uma energia boa demais! Adoro estar ali!

terça-feira, 29 de março de 2016

Aniversário infantil nos USA!!!


 Antes de nos mudarmos para os Estados Unidos, li num blog de maternidade uma mãe contando que as festas aqui duravam uma hora e meia e não serviam sequer um copo d'água aos pais. Eu me apavorei - por cerca de um minuto. No intante seguinte, eu já estava pensando que quando chegasse a vez dos meus filhos, faria tudo do meu jeito. À brasileira. 
Eu já era moradora da Gringoland há mais de seis meses quando chegou o aniversário do Davi. No intervalo entre nossa mudança e o dia dele, tínhamos tido chance de ir a muitos aniversários infantis por aqui. Alguns, de brasileiros, com jeito de festa-festa: fartura de comida, decoração caprichada, papo descontraído entre os adultos, muitas brincadeiras entre as crianças. E outros, de americanos, com jeito de... festa americana. 
Não digo isso num tom pejorativo. Mas, sim, as festas infantis americanas não são similares às nossas. Ainda não tivemos a experiência do 'nem servirem um copo d'água', mas a maioria das festinhas consiste em deixar as crianças brincando por x tempo (nas 'casas de festas', cerca de uma hora e vinte minutos), depois sentá-las à mesa, servir pizza e suco e depois cantar os parabéns. Tudo acaba em cerca de duas horas. A decoração é bem simples, normalmente apenas um bolo decorado e uma dúzia de balões. E sacolinhas de brindes, cheias daquelas bugingangas que as crianças adoram. Depois de quase sete meses vendo estas festas, confesso, a praticidade com que elas são produzidas começou a crescer dentro de mim...
Então, chegamos a fevereiro e eu queria comemorar meu filhote. E a dúvida, sobre o que fazer? Então, como boa festeira, decidi não escolher: fizemos uma festa no dia dele, à brasileira e outra no dia seguinte, à americana. Na sexta teve bolo e guaraná, brigadeiro, cachorro- quente... No sábado, pizza, chips e bolo. No mês seguinte, eu já sabia que faria a mesma coisa para comemorar os quatro anos da caçulinha. Então foi o `bolo do Arrrrlo`, como ela queria, na casa de festas, e uma festa de coelhinho no Sábado de Aleluia. Dividimos os amigos, também: os da escola ficaram para a 'casa de festas', e aqui em casa priorizamos os amigos sem filhos - exceto dois casais muito amigos com crianças. 
Foi engraçado, de início, notar que num país onde se tem tudo para festa, as pessoas festejem tão pouco. Mas isso acabou sendo a salvação da minha lavoura: no aniversário da Lara, eu tive que fazer tudo sozinha: bolo, brigadeiros, decoração, comidas para o churrasco. E deu tudo certo! Depois, com calma, eu conto um pouquinho mais sobre isso...

Houston, dear, obrigada por nos dar, todos os dias, motivos para comemorar estarmos aqui. 

Rio de Janeiro, seu lindo, desta vez não pudemos estar aí... A saudade da terra e das gentes foi grande, mas sabemos que sempre teremos ocasiões de celebrar nossa velha cidade! :)


Fotos, fotos, fotos: a primeira, na nossa casa, no dia do aniversário do Davi! Minha irmã estava aqui para comemorar conosco, o que foi o máximo! Ele teve, em casa, uma festinha do Peanuts - ele escolheu o tema assim que viu o filme. Na casa de festas, foi do Hot Wheels.
A segunda é do dia do aniversário da Lara, com a festa do 'The good dinosaur', como ela quis. Ela chorou litros vendo o filme, mas cismou com o Arrrrlo (ela já fala com sotaque gringo!) e então teve o tal bolo com o dinossauro. A vovó Célia estava aqui para celebrar o dia dela, o que também foi o máximo!
A terceira é do bolinho que fizemos para comemorar o aniversário da Lara na Páscoa. Eu usei um livro mega fofinho como inspiração para a decoração, arregacei as mangas, acendi uma vela para Santa Martha Stewart e mandei bala. Ficou fofíssimo!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

... e eis que virei a mocinha do filme de terror!

A cena é conhecida. Filme de suspense/terror: um psicopata/monstro solto e uma mocinha que, alheia ao fato, anda tranquilamente, toma um banho demorado, dirige devagar, etc, etc, etc. Do lado de cá da tela, estamos pensando `deusdocéu, como pode ser tão tapada?`. Parece algo de cinema, mas é bem real. Quantas vezes não ouvimos a notícia de um assalto e pensamos algo como 'ah, mas sozinho, à noite, ali, realmente estava se arriscando`. No Rio de Janeiro, temos que admitir, acabamos, sim, pensando isso em algum momento. Quando o problema - vamos por furto, que é muito comum - acontece com alguém que não mora no Rio, aí está armado o circo! 'Ah, é turista, coitado, não tem a manha do carioca!' 
Dos meus 39 anos de vida, a maioria foi passada no Rio de Janeiro. Eu sempre fui aquela que não seria furtada num café em Paris (como não fui) ou no metrô em Nova Iorque (também não fui), porque tinha 'a manha do carioca'. Sempre achei que crescendo numa cidade maravilhosa e violenta como o Rio, eu estava 'preparada' para não passar por nenhum sufoco, em lugar algum. Então, há sete meses e meio, me mudei para o Texas. E esta semana eu percebi, assustada, que eu virei a mocinha do filme de terror.
Dia de semana, tarde da noite, e eu percebo que o queijo acabou. As crianças já estão indo dormir e eu aviso ao marido que vou até o mercado. Chego lá com o estacionamento já meio deserto e entro para fazer as compras. Quando eu estou de volta, próximo ao carro - que está num lugar um pouco escuro - aparece um homem, detrás do meu veículo. E a minha primeira reação é... dar boa-noite!
Sim, para um carioca, ler isso deve dar até um frio na espinha. Daria na minha, também! Mas foi exatamente isso o que aconteceu: dei boa noite ao desconhecido que surgiu detrás do meu carro, no estacionamento deserto, tarde da noite. E ele? Ele sorriu para mim, aproxinou-se e disse 'e dá para acreditar que estamos no meio do inverno, numa noite linda destas? É mesmo uma ótima noite, m'am! Aproveite o resto dela!' Eu sorri de volta e disse 'você também!' e entrei calmamente com minhas sacolas, coloquei o cinto de segurança sem pressa e saí do mercado em paz. 
Sim, há sete meses e meio, eu jamais pensaria que eu faria algo assim. Eu mesma me surpreendi com minha reação - como assim, não dei meia volta e retornei ao mercado? Como não joguei as sacolas? Como não... carioquei? E a resposta é simples e triste.
Estamos tão acostumados à violência do Rio de Janeiro que não nos damos conta do quanto ela nos transformou em sobreviventes do caos. Olhamos para todos os lados, desconfiamos das pessoas, avançamos os sinais à noite. Ficamos sempre à espera de um perigo oculto. E isso é péssimo! É desgastante, é apavorante! A vida inteira eu agi assim, sempre tentando prever algo ruim que pudesse acontecer no minuto seguinte. E aí me mudei para um lugar em que eu não preciso mais agir assim. Agora, eu consigo entender os turistas que são assaltados no Rio. Eles não estão preparados para a violência diária da cidade mais linda do mundo.
Nestes sete meses e meio de vida texana, duas experiências me marcaram muito. Uma, ainda no meu primeiro mês aqui, foi quando eu fui parada por excesso de velocidade. O guarda me passou o maior sermão, já com o talão na mão e eu ... fui absolutamente honesta. Disse que tinha acabado de chegar, que não sabia que existia horário escolar, e que estava até constrangida diante do meu erro. O guarda me olhou fundo nos olhos e disse 'você me dá a sua palavra que nunca mais cometerá este delito?' Eu dei. Ele não me multou. A outra, contei aqui mesmo ( http://houstonhaveaproblem.blogspot.com/2015/11/aceito-fiado.html ) , sobre o prestador de serviços que também confiou na minha palavra. Em um lugar onde a sua palavra é levada a sério, você se sente seguro. Porque você ainda tem voz. 


Houston, dear, obrigada pela minha paz de espírito.Sem perceber, eu paro sozinha, à noite, nos sinais vermelhos, sem olhar para os lados. Eu estaciono o carro em lugares desertos sem medo. Eu voltei a andar despreocupadamente, sem achar que o perigo me espreita. E isso não tem preço. 

Rio, meu amor, nestes dias, eu tenho chorado tanto por você... A saudade das pessoas aumenta, mas as notícias que chegam são sempre tão ruins que vai me dando uma tristeza sem fim. Espero que cuidem melhor de você.



*Tem alguém que não conhece esta foto? A clássica cena de Janet Leigh no chuveiro, no filme Psicose, de Alfred Hitchcock, é um marco neste clássico do suspense. Um dos cineastas favoritos do meu pai, que passou para os 3 filhos o fascínio por este genêro. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

E você, pode morar fora?

Tomar a decisão de arrumar as malas e mudar de país não é fácil. Algumas pessoas (como foi nosso caso), tem um bom respaldo, com emprego garantido. Outros, vão na cara e na coragem. Mas, de uma forma ou de outra, o `sair do Brasil`, por incrível que pareça, é por vezes a parte fácil. Por mais doloroso que seja dar adeus a família e amigos, é uma dor tipo `band-aid arrancado rapidamente.` O que te espera depois é que é pauleira. E nem todo mundo aguenta este tranco.
Nestes seis meses no Texas, tenho conhecido diferentes pessoas. Conheci pessoas que moram aqui há décadas e outras que se mudaram depois de mim. Pessoas que moram há menos de um ano e não pensam em voltar e outras que moram há dez e só pensam em voltar. Saudades, todo mundo tem. Mas por que alguns parecem adaptar-se rapidamente à vida expatriada enquanto outros parecem sofrer indefinidamente? E você ? Acha que poderia morar fora? 
Hoje, levei meus filhos a uma lanchonete com parquinho. Em poucos segundos, meu filho começou a brincar com um menino que já estava lá. Correram juntos. Brincaram com carrinhos juntos. Desceram o escorrega juntos. Empurraram-se mutuamente, rindo, dizendo que estavam lutando. E aí a mãe do menino o chamou para ir embora. O menino foi até meu filho e disse `eu preciso ir. Até logo, meu amigo!` Davi, meu filho, foi até ele. Eles se abraçaram, enquanto meu filho dizia `até logo, meu amigo!` - ou, para ser exata, `see you, my friend!`:) Eu vi aquela cena e meu deu um estalo. O porquê de algumas pessoas adaptarem-se tão rapidamente a viver fora é simples: elas continuam usando algumas das regras de ouro do universo infantil. E se você está pensando em viver fora, saber agir como uma criança pode ser a diferença entre `the time of your life` para `socorro, o que estou fazendo aqui?` E estas regras são bem simples...

1- Saiba fazer amigos.
Conforme o tempo passa, ficamos mais seletivos e isso vai dificultando o processo de espontaneamente fazermos amigos. Acabamos presos aos amigos de escola, faculdade, trabalho. Mas a verdade é que podemos fazer novos amigos o tempo todo, estando ou não fora do nosso país de origem. A receita é bem simples: analise - do que EU gosto? Sim, do que eu gosto? Fotografia, culinária, pintura...? Se eu pudesse escolher uma atividade que me dê prazer, qual seria? Pense no que te faz feliz. E trate de fazer amigos assim! Faça um curso, workshop, etc, daquilo. Você vai conhecer várias novas pessoas que já tem, de cara, uma coisa em comum com você. E daí você vai vendo os que tem mais coisas em comum, os que `o santo bate`e vai trazendo para sua vida. A chance de dar certo é enorme, pode acreditar.

2- Seja generoso.
As comparações são inevitáveis. `Minha antiga casa era assim, esta é assado.` Nenhum lugar é igual ao outro. Você pode morar numa cidade linda (eu morava!) e achar que sua nova cidade é completamente `bege`(eu achei!), mas a verdade é que podemos ver beleza nos detalhes. Podemos juntar milhões de minúsculas coisinhas para formar um grande amor. Por um lugar,inclusive. Então, mantenha seu olhar generoso.

3- Seja egoísta.
Sim, crianças dividem tudo. Mas brigam pelo brinquedo favorito, certo? Saiba, da mesma forma, ser egoísta. Reconheça dias difíceis, ligue para um velho amigo e desabafe, tire um momento só para você. Saiba que ter saudades é normal e que você tem o direito de ficar triste. Mas não se consuma com isso - que tal comer algo bem gostoso, algo que sua avó fazia?  Sinta aquele sabor e lembre-se de um dia feliz. E deixe-se dominar pela alegria desta lembrança.

4- Seja grato.
Crianças são gratas pelas miudezas da vida. Acham graça nos detalhes que passam desapercebidos aos olhos adultos. E isso, infelizmente, é algo que o tempo destrói. Afinal, quem tem tempo de ver que um passarinho fez ninho na árvore do quintal quando a conta de luz veio o dobro do esperado? Quem consegue achar graça numa formiguinha carregando uma folha enorme quando o filho está doente? Esta é a grande tristeza da vida adulta. Aos poucos, deixamos de ser gratos por toda a beleza e grandiosidade que nos cerca. E sempre há beleza e grandiosidade, acreditem! Um dia de sol é um motivo para sorrir. Um dia de chuva é um motivo para sorrir. Porque cada um traz sua cor, seu cheiro, sua graça. Então, o mais importante, seja você expatriado ou não (mas certamente indispensável caso seja ou pense em vir a ser!) é saber ser grato por todas as pequenas sutilezas que nos cercam. Saber agradecer pelas imperceptíveis bençãos diárias é um exercício difícil. E necessário. ;)


Houston, dear, obrigada por me dar mais motivos para ser generosa do que egoísta nas tuas cidades beges, limpas, organizadas. E cheias de gente linda com mil histórias interessantes para contar! :)



Foto: esta imagem apareceu quando gogglei `vida expatriada`. É de um texto bem bacana de um blog que curto bastante. O texto na íntegra e a imagem estão aqui: http://tudosobreminhamae.com/maes-fora-do-brasil/2015/5/5/expatriada-uma-mulher-de-fases

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

SEIS MESES!!!!

É impressionante; louco até. Hoje completamos seis meses no Texas. SEIS MESES!!! Metade de um ano que equivaleu a metade de uma vida. Tanta mudança, tanta coisa nova que vimos, tanta gente nova que conhecemos. Uma jornada completa. E ainda tem muita coisa por vir! :)
Agora, seis meses depois, o que mais ouço/ tenho que responder é: `já está adaptada, está gostando de morar aqui?`Normalmente vem assim, duas perguntas numa só. O que é confuso porque são duas situações distintas. Acostumar-se a morar em um lugar é uma coisa. Gostar de morar em um lugar é uma outra coisa. E de tanto (tentar) responder a esta pergunta, me vi pensando e repensando nisso. Me acostumei a morar no Texas? Eu gosto de morar aqui?
Acostumar-se a morar aqui é bem fácil, especialmente para quem : 1- tem um conhecimento médio da língua inglesa; 2- sabe dirigir. Por sorte, eu me encaixo nas duas categorias - tenho um inglês bastante razoável e sou boa motorista. A ausência `de casa`sempre vai existir, mas hoje, seis meses depois, estou acostumada às vizinhanças de Houston. Acostumada no sentido literal da palavra, de quem conhece as maneiras, os hábitos de algo. Sim, já me viro bem por aqui. E quanto a gostar daqui? Gostar. Gostar são outros quinhentos. Eu demorei muito até consegui achar a maneira exata de  expressar como me sinto morando aqui, mas achei. E tem a ver com sorvete. 
Imagina um dia de verão, quente, e você tem diante de si uma casquinha de baunilha do Mc Donald`s. É simplesmente irresistível! Refrescante, saborosa, leve. Te deixa um gostinho doce na boca, sem te deixar pesado. Não conheço uma pessoa que diga `eu odeio a casquinha do Mc!`Pois é. Todo mundo gosta. Mas... é o sorvete PREFERIDO de alguém?
O meu sorvete preferido, desde a infância, é o mesmo. Banana split de chocolate (sim, com as 3 bolas com sorvete de chocolate!). Eu não consigo imaginar uma maneira melhor de tomar sorvete do que 3 bolas de chocolate, banana, chantilly, calda de chocolate e morango, castanhas e cereja. De verdade, acho que não dá para ficar melhor do que isso! Ou seja, é o meu sorvete preferido, há mais de 30 anos. Provavelmente será para sempre.
O Rio de Janeiro, com TODOS seus defeitos, é minha banana split de chocolate. Sempre será. Mas, e daí? Eu posso continuar preferindo minha banana split e ainda assim tomar uma casquinha de baunilha, certo? Pois é assim que eu me sinto. É difícil não gostar daqui, que é limpo, seguro, organizado. E mesmo sem ser o `lugar dos sonhos`/ o melhor sorvete de ninguém (filme sobre Houston, só falando da Nasa. Vai ver o que falam de Paris!), todo mundo se acostuma e, eventualmente, gosta - porque não há motivos para não gostar. E então, por enquanto, sigo tomando minha casquinha de baunilha. Feliz. 


Houston, nestes seis meses, eu quero agradecer às pessoas que tem `dividido a casquinha` comigo, minhas amigas Glenia, Jade, Lara, Patricia, Renata, Yasmin, Micaelli, todas as mães da OKE: mil obrigadas pelo carinho, apoio e amizade! Quero agradecer ainda ao Cara lá de cima que me ama pacas e facilita minha vida um monte. Então... Muito obrigada por ter transferido a Adriana e o Rafael para cá. Acho que agora já posso contar esta novidade: este casal de amigos, nossos padrinhos de casamento, se mudaram para cá esta semana. Minha família texana continua crescendo! :D