Quando começamos a pensar em vir para os Estados Unidos, um turbilhão de emoções me invadiu. Eram várias pessoas nos incentivando, dizendo no que iríamos ganhar com a experiência de morar fora. Eu só conseguia pensar no que iríamos perder. Ficaríamos longe: da família, dos amigos, da nossa casa, da nossa terra, da nossa língua. Longe. Eu me lembro o dia em que, particularmente sensível, me dei conta de que o Davi seria alfabetizado em inglês. Com cerca de 5 anos e meio quando chegamos e considerando o tempo mínimo que passaríamos aqui, ele moraria no Texas durante sua alfabetização e, portanto... Lágrimas rolavam dos meus olhos enquanto eu juntava livrinhos infantis da Mary e do Eliardo França, os mesmos com que eu comecei a juntar letras em sílabas e depois em palavras, frases e histórias completas. Aquilo me doeu tanto! Imaginar que meu filho, MEU FILHO!, não seria alfabetizado em português. Me lembro de passar alguns minutos sofrendo por isso antes de realizar que a Lara, ainda mais nova, teria o inglês como língua materna. Foram dias pensando e sofrendo com isso.
Como eu esperava, chegamos, começamos a nos adaptar e, pouco depois, as crianças estavam na escola. Em pouco tempo, Davi começou a trazer folhinhas em que ele deveria treinar caligrafia. A,B, C. Depois, começou a juntar as letras. Logo, estava fazendo os sons das sílabas - com o sotaque texano mais lindo do mundo! - e então... palavras. No começo, aquele lance meio carteado, a professora mostra a palavra e a criança memoriza. Mas aí, num dia, parados num sinal, devagar e com segurança, ele leu 'tu-r-n lef-t. Turn left!' Eu me lembro da sensação de surpresa e orgulho, eu e maridão nos olhando, sorrindo, cúmplices. Aquele minuto parados num sinal foi o primeiro de muitos, e, agora, ele já pega pequenos livros e lê.
Alfabetização em português? Sim, terá. Ele pergunta sobre os livros brasileiros, compara os sons, é curioso e interessado. Com o tempo, será também alfabetizado na nossa língua, mas agora é a hora de concentrar na escola, no lugar em que ele vive. E seguimos fortes aprendendo a língua inglesa.
Vendo meu filho desbravando os livros deu-me ânimo de, também eu, encarar livros escritos em inglês. Desde que cheguei, já li muitas revistas e jormais, livrinhos infantis, histórias em quadrinhos. Mas pegar um romance e ler, do começo ao fim, eu ia adiando. O motivo? Nem sei. Não sei se era preguiça, por achar que seria difícil. A verdade é que eu estudei inglês durante muitos anos - fiz o curso da Cultura Inglesa - e, nesta época, li muitos romances em inglês. Lembro de ter lido 'Animal farm' primeiro em inglês, por exemplo. Só que isso foi quando eu estudava inglês e só de formada tenho vinte anos. Continuei, sempre, lendo alguns artigos, histórias curtas, mas não mais livros. Até ver meu filho tão orgulhoso do seu A,B,C e resolver tentar novamente. O livro escolhido, que ganhei de presente da minha amiga-parceira-no-crime Glenia Aguiar (do MA-RA-VI-LHO-SO http://www.houstonbyus.com/ ) foi o Love Antony. A história - triste e linda - conta a trajetória de duas mulheres em Nantucket. Uma acaba de se separar do marido, que a traiu. Outra está tentando sobreviver à morte do único filho, um autista não verbal de nome Antony. Eu sempre digo o quanto amo livros 'sessão da tarde', que distraem e divertem. Este foi sessão-da-tarde-com-caixa-de-lenços-do-lado. A leitura fluiu melhor do que eu esperava. Aprendi novas palavras, mas, no geral, me virei muito bem, obrigada, sem precisar de dicionário. E a sensação que fica? Um misto de vitória (opa, já posso fazer estragos na minha 'Livraria da Travessa' daqui!) e orgulho. De repente, sem que eu me desse conta... A,B,C, eu e Davi já sabemos ler! :)
Houston, dear, prepara tuas livrarias que eu tô chegando!
Nenhum comentário:
Postar um comentário