terça-feira, 26 de abril de 2016

A,B,C: já sei ler!

Quando começamos a pensar em vir para os Estados Unidos, um turbilhão de emoções me invadiu. Eram várias pessoas nos incentivando, dizendo no que iríamos ganhar com a experiência de morar fora. Eu só conseguia pensar no que iríamos perder. Ficaríamos longe: da família, dos amigos, da nossa casa, da nossa terra, da nossa língua. Longe. Eu me lembro o dia em que, particularmente sensível, me dei conta de que o Davi seria alfabetizado em inglês. Com cerca de 5 anos e meio quando chegamos e considerando o tempo mínimo que passaríamos aqui, ele moraria no Texas durante sua alfabetização e, portanto... Lágrimas rolavam dos meus olhos enquanto eu juntava livrinhos infantis da Mary e do Eliardo França, os mesmos com que eu comecei a juntar letras em sílabas e depois em palavras, frases e histórias completas. Aquilo me doeu tanto! Imaginar que meu filho, MEU FILHO!, não seria alfabetizado em português. Me lembro de passar alguns minutos sofrendo por isso antes de realizar que a Lara, ainda mais nova, teria o inglês como língua materna. Foram dias pensando e sofrendo com isso.
Como eu esperava, chegamos, começamos a nos adaptar e, pouco depois, as crianças estavam na escola. Em pouco tempo, Davi começou a trazer folhinhas em que ele deveria treinar caligrafia. A,B, C. Depois, começou a juntar as letras. Logo, estava fazendo os sons das sílabas - com o sotaque texano mais lindo do mundo! - e então... palavras. No começo, aquele lance meio carteado, a professora mostra a palavra e a criança memoriza. Mas aí, num dia, parados num sinal, devagar e com segurança, ele leu 'tu-r-n lef-t. Turn left!' Eu me lembro da sensação de surpresa e orgulho, eu e maridão nos olhando, sorrindo, cúmplices. Aquele minuto parados num sinal foi o primeiro de muitos, e, agora, ele já pega pequenos livros e lê.
 Alfabetização em português? Sim, terá. Ele pergunta sobre os livros brasileiros, compara os sons, é curioso e interessado. Com o tempo, será também alfabetizado na nossa língua, mas agora é a hora de concentrar na escola, no lugar em que ele vive. E seguimos fortes aprendendo a língua inglesa.
Vendo meu filho desbravando os livros deu-me ânimo de, também eu, encarar livros escritos em inglês. Desde que cheguei, já li muitas revistas e jormais, livrinhos infantis, histórias em quadrinhos. Mas pegar um romance e ler, do começo ao fim, eu ia adiando. O motivo? Nem sei. Não sei se era preguiça, por achar que seria difícil. A verdade é que eu estudei inglês durante muitos anos - fiz o curso da Cultura Inglesa - e, nesta época, li muitos romances em inglês. Lembro de ter lido 'Animal farm' primeiro em inglês, por exemplo. Só que isso foi quando eu estudava inglês e só de formada tenho vinte anos. Continuei, sempre, lendo alguns artigos, histórias curtas, mas não mais livros. Até ver meu filho tão orgulhoso do seu A,B,C e resolver tentar novamente. O livro escolhido, que ganhei de presente da minha amiga-parceira-no-crime Glenia Aguiar (do MA-RA-VI-LHO-SO http://www.houstonbyus.com/ ) foi o Love Antony. A história - triste e linda - conta a trajetória de duas mulheres em Nantucket. Uma acaba de se separar do marido, que a traiu. Outra está tentando sobreviver à morte do único filho, um autista não verbal de nome Antony. Eu sempre digo o quanto amo livros 'sessão da tarde', que distraem e divertem. Este foi sessão-da-tarde-com-caixa-de-lenços-do-lado. A leitura fluiu melhor do que eu esperava. Aprendi novas palavras, mas, no geral, me virei muito bem, obrigada, sem precisar de dicionário. E a sensação que fica? Um misto de vitória (opa, já posso fazer estragos na minha 'Livraria da Travessa' daqui!) e orgulho. De repente, sem que eu me desse conta... A,B,C, eu e Davi já sabemos ler! :)

Houston, dear, prepara tuas livrarias que eu tô chegando! 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Forças da natureza

É inegável que, diante de um desastre natural, sentimo-nos mínimos. Quando a natureza resolve mostrar sua força, nós, meros humanos, temos que lidar com todas nossas limitações. 
Esta semana, em Houston, foi o reconhecer da nossa impotência. Com tempestades e avisos de tornado, a cidade e seu entorno, completamente planos, ficaram debaixo d'água. Muitos perderam casas, carros. Na cidade em que estou, o distrito escolar suspendeu as aulas durante toda a semana, devido à dificuldade de locomoção por parte de alguns. E então, ontem, na minha cidade (sempre será!), no Rio de Janeiro, uma forte ressaca do mar derrubou uma parte da ciclovia de São Conrado, inaugurada há poucos meses. Outro desastre natural... ou não?
Sim, quando a natureza resolve mostrar do que é capaz, nós vemos como somos fracos. Entretanto, há formas e formas de se lidar com desastres naturais. Desde que começaram as chuvas fortes por aqui, recebo emails e mensagens várias vezes por dia, dizendo como está o tempo, qual a previsão para as próximas horas, onde está alagado, onde não devo ir. Recebo, também, orientações de como agir em caso de ficar debaixo d'água, para onde ir em caso de tornado, para onde ligar para pedir ajuda imediata. E eu até agora não faço a mínima ideia de como conseguiram meu email e telefone! Aparentemente, ao pagar uma única conta que seja, você tem seu endereço verificado e pronto: sabem que você mora naquela região e, em caso de necessidade, entram em contato. Apesar do exato local onde moro não ter tido mais do que uma poça na frente da casa do vizinho (que serviu de brincadeira para as crianças da vizinhança), a situação foi bastante crítica à nossa volta. Ainda assim, para definir de uma maneira simplista, eu não me senti desamparada em momento algum.
Damos então um pulinho na minha terra. Feriado, as pessoas saem para andar de bicicleta, correr e aí bate uma onda forte e... desaba uma ciclovia construída à beira-mar. Não consigo expressar como me senti, mesmo daqui. Eu mal dormi esta noite, minha cabeça girava! Como que uma obra feita À BEIRA MAR não conta com a força do mar? O que dizer das pessoas que fizeram e executaram este projeto? O que dizer dos nossos governantes, que AUTORIZARAM a obra e puseram em risco a vida de seus governados? Vi muita gente dizendo que tem vergonha das pessoas que estão comandando o Rio de Janeiro atualmente. Eu não tenho vergonha. Eu tenho asco, eu tenho raiva. A sensação, hoje, é de revolta. E na inevitável comparação, minha cidade texana ganha de lavada: aqui, até a natureza usa suas armas pesadas e, como bom cowboy, dispara a artilharia sem dó. Mas você é avisado, o tempo todo, que pode estar em risco, é orientado onde pode ou não ir, é, por vezes, aconselhado a ficar em casa (empresas liberaram funcionários; jornalista pediu ao vivo que, se coagidos a ir ao trabalho em condições perigosas, as pessoas informassem os nomes de seus empregadores para que ele denunciasse). Você não sai feliz de casa, num feriado, para aproveitar o sol é levado por uma onda. Esta insensatez sem tamanho revolta e angustia.

Houston, dear, obrigada pelo alarme na televisão, que interrompe o programa para avisar que voltará a chover forte. Sei que houve vítimas da chuva aqui e meu coração está partido por elas, mas também sei o quanto incontáveis vidas foram salvas por conta dos alertas dados.


Rio de Janeiro, meu amor, hoje novamente choro por você. Que Deus conforte as famílias que perderam seus entes queridos neste absurdo desmedido. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Brincando no Texas

Brincadeira é brincadeira em qualquer lugar do mundo e, assim que chegaram, Davi e Lara logo aprenderam a dizer 'vamos brincar de pique-pega'. E quanto aos brinquedos? 
Quando pensamos em brinquedos americanos, forçoso admitir, a primeira coisa que vem à cabeça são legos, barbies, bonecos da Disney, videogames. Eu vim para cá com esta imagem na cabeça  e encontrei todos estes artigos, de fato. Mas também descobri muita coisa interessante, além do 'esperado' . Na terra do 'tem de tudo', a criatividade tem vez.
A vasta gama de brinquedos montessorianos deixa os nossos poucos exemplares no chinelo. Brinquedos 'waldorf' são facilmente encontrados. Toda espécie de brinquedo de madeira, de tecido, natural, você acha. O estímulo ao lúdico está presente por todo lado e nesta disputa pelo mercado infantil, as crianças saem ganhando.
Hoje, com chuva forte e sem aulas, meus filhos estão em casa. Já desenharam. Poderiam ter pintado, esculpido em massinha ou ter colorido a giz, dentro de casa - os produtos são 'altamente laváveis', conforme o rótulo. E são mesmo: tudo sai com um paninho e água, incrível! Mas hoje escolheram 'escavar' e estão na garagem, com uma placa de gesso, escavando um fóssil de T-rex. Nesta fase 'dinossauros' em que estão, já escavaram alguns, já puseram ovo para crescer e já montaram fósseis. O mais bacana é que depois dá para fazer uma pesquisa, mostrando como era aquela espécie, do que se alimentava, como vivia e etc. Não a toa, a ida ao museu de história natural é um dos programas preferidos da casa.
Sim, aqui o 'apelo da maçã' é assustador e as crianças tem o direito de brincar no ipad na escola. Mas há um outro lado bacana que muitas pessoas não conhecem. Por isso, uma dica: na próxima viagem aos EUA, programe-se  para, antes de ir à loja da Disney, parar para conhecer alguns itens 'diferentes'. Com certeza as crianças vão curtir muito! ;)

Houston, dear, obrigada pela infância 'sem maçã'! Os blocos de madeira tem que sempre vir antes de tudo. :)

sábado, 16 de abril de 2016

DIY: descobrindo talentos no Texas

As letrinhas DIY são a abreviação da frase 'do it yourself', o nosso 'faça você mesmo'. E aqui nos EUA, muita coisa fazemos por nós mesmos...
Quando narro nossa vida aqui, muita gente deve achar que é tudo muito fácil. Primeira coisa: ficar longe da família e dos amigos é difícil. Segunda coisa: nós viemos com uma situação 'ideal', se é que isto existe. O Felipe foi convidado a trabalhar aqui e a empresa pagou nossas despesas de mudança. Só que o conteiner que trouxe nossas tralhas demorou 2 meses para chegar e nós quisemos ter 'nossa' casa antes disso. Ou seja: mudamos e tivemos que comprar tudo novo. E aí, a não ser que a reserva de dinheiro seja muito boa (não era nosso caso), você consegue comprar tudo bacaninha, montar o cafofo, escolher carros legais. Mas... fica tudo na conta e não sobra dinheiro para os luxos. O que é luxo? Bom... ir ao salão de beleza é luxo, né?
Eu me lembro que tive uma diarista com unhas lindas, sempre bem feitas. Ela dizia 'minha vizinha é manicure e me faz um precinho camarada'. E toda semana ela estava com as unhas perfeitas. É um pouco da nossa cultura: no Brasil, a maioria das mulheres curte fazer as unhas, depilação, cabelo, etc. E da mesma forma que tem salões espetaculares, com preços nas alturas, tem sempre um salãozinho na esquina, com o tal precinho camarada. E todas seguimos de unhas feitas.
No Texas, o preço da energia elétrica é ridículo comparado ao que pagávamos no Rio de Janeiro. Assim como gás e água. Gasolina tem preço em conta, comida, idem. Mas os 'superfluos' saem mais caros. Então, os 'gastos no salão' pesam no bolso. Por isso, como disse, a não ser quem esteja com uma boa graninha reservada, quem acaba de se mudar precisa segurar a onda nesta pequenas coisas. E aí, como se virar?
Bom, do ponto de vista prático, eu podia 'fazer a Ohana anos 80' e abandonar a depilação, por exemplo. Mas eu não queria seguir por aí. Da mesma forma, poderia optar por não mais fazer as unhas - mas, vai, não dá até uma melhorada no humor ver as unhas bonitinhas? :) Ou seja, a solução, a curto prazo, era apenas uma, usar as 3 letrinhas daí de cima e fazer tudo eu mesma.
No Brasil, eu já tinha experimentado ceras caseiras de depilação. Achei tudo caro e complicado. Por isso, era cliente das 'menos pelo' da vida. Aqui, confesso, fiquei ressabiada ao compar cera e tentar me depilar. Ao contrário da minha experiência anterior, no entanto, foi tudo bastante prático. Menos uma coisa a me incomodar, pronto!
No quesito 'fazer as unhas', eu já tinha alguma experiência - todas temos ao menos um alicatinho em casa, né?  E ao descobrir os produtos daqui, fui sem medo testar.  O 'gel que dissolve as cutículas em 15 segundos', para os padrões brasileiros, deixa rastros. Mas aí o bendito alicatinho arremata, né? :) 
Claro que fazer serviços de beleza, com um profissional especializado, é sempre melhor. Eu já fui a diversos locais aqui, mas aprendi a eleger prioridades e deixar o salão para ocasiões especiais. No dia a dia, faço eu mesma, Como é o esquema da mulherada daqui. 

Se você está programando uma viagem para os Istêites, pare numa Walgreens, CVS ou a farmácia mais próxima de você e leve algumas coisitas para casa! A linha da Sally Hansen tem muita coisa boa para fazer as unhas. Veet, aqui, é uma imensidão de produtos, para tudo que é tipo de pele e necessidade. Dê uma olhada com calma e depois tente fazer você mesma. Vai ser, no mínimo, uma experiência divertida ver que dá para fazer sozinha tantas coisas que estamos acostumadas a delegar. 


Houston, dear, obrigada pelo preço da energia. Salão dá para reservar às datas comemorativas, mas ficar sem ar condicionado... Isto não dá, não! :D

terça-feira, 12 de abril de 2016

Uma nova velha infância.

Quando você pensa em infância, qual a primeira coisa que te vem à cabeça? Se a sua foi um pouco parecida com a minha, vem mil coisas boas ao mesmo tempo: brincadeiras, amigos, sons, cores, sabores, cheiros. E tudo que eu vivi - ou que me lembra - a minha infância tem um gostinho especial. Por isso, naturalmente, eu pensei em passar parte do que vivi na primeira idade para os meus filhos. Sim, este sempre foi o plano. Daí você muda de casa, de país, de continente. Fuén, fuén, fuén! Seus filhos passam mais tempo ouvindo outra língua e você ainda tem pretensão de passar adiante uma parte da sua história?
Sim, admito: mudar de país nos faz rever todos os nossos conceitos, refazer todos os planos. O que, aliás, é algo bastante interessante. Esta ideia de recomeço, embora um pouco assustadora, é libertadora. Por que não voltar a seguir um velho sonho? Por que não mudar o que pensamos? Podemos (e devemos, aliás!) fazer isto o tempo todo, mas acabamos nos acostumando a seguir com nosso velho-bom-e-seguro-planejamento-inicial. Aí somos forçados a uma mudança - e nos deparamos com elas o tempo todo! - e pronto! Ou aprende a dançar conforme a música ou... dança! :)
No meu plano de 'quero que meus filhos tenham um tantinho da minha infância', o cenário não era uma casa de tijolinhos no Texas. No entanto, aqui estamos. E eu resolvi... adaptar o plano!
Uma das melhores lembranças da minha meninice são os livros. Não apenas as histórias, vejam bem: os livros! Eu lembro do cheiro dos livros. Eu lembro das cores dos livros. Eu lembro de, inicialmente, ouvir aquelas histórias e ter aquilo como parte de mim. Eu lembro das primeiras vezes em que comecei a ler aquelas histórias sozinhas. Eu lembro da sensação, única e que nunca perdi, de realização ao terminar um bom livro. Por isso, quando nos mudamos, boa parte do contêiner que trouxe nossa bagagem era de livros. E muitos, muitos livros favoritos. Vários parentes e amigos mandaram livros novos, renovando nossa bibliotequinha. Mas eis que o Davi está na escola e um belo dia ele começa a aprender letras, depois sons. Começa a juntar os fonemas e sem nos darmos conta, um belo dia... ele está lendo. Em inglês! Já sabe muitas palavras, faz frases curtas e lê livros simples. Tudo, claro, nos moldes da Gringoland, com sotaque texano e tudo! E aí, não teve Ruth Rocha, Fernanda Lopes de Almeida e Ana Maria Machado que dessem jeito na questão: o moleque queria ler, e queria ler in english!
Se uma das melhores coisas da minha vida é a paixão por livros e histórias, não iria nunca privar meus filhos disto! Então, devagar e sempre, a nossa bibliotequinha começou a ter títulos em inglês. E mais e mais e mais. Na hora de dormir, agora lemos ao menos um livro em cada língua. E meus filhos já corrigem o meu sotaque! (o qual TODOS os nativos que ouvem dizem que é lindo demais, que adoram o fato dos brasileiros falarem cantando! :) )
Tem livro infantil brasileiro de sobra por aqui! Tem também historinhas de folclore, paçoca e 'A arca de Noé' tocando no carro. Mas temos também cada vez mais livrinhos americanos na casa. Porque se dá para gente aproveitar um pouquinho do melhor dos dois mundos... aproveitemos! ;)

Houston, dear, obrigada por me proporcionar uma nova infância! Tantos novos livros a serem descobertos está sendo uma experiência incrível!


Os livros: 'A margarida friorenta' está ilustrando esta postagem porque eu me lembro exatamente como me senti (um misto inexplicável de alegria e tristeza) ao ler este clássico pela primeira vez. E foi também um dos primeiros livros que li sozinha. Da Fernanda Lopes de Almeida - aquela mesma, de 'A fada que tinha ideias', lembra? :)
'I am a bunny', do Richard Scarry, caiu no meu pé. Literalmente: estava dando uma olhada em livros, ele estava atrás de um, escorregou e caiu em cima de mim. Ao pegá-lo para devolver à prateleira, fiquei absolutamente encantada com as imagens e acabei comprando-o. Foi o primeiro livro infantil que comprei por aqui e o li muitas vezes para o Davi e a Lara. Tantas que, no aniversário dela, usamos imagens deste livrinho para decorar a casa. E ficou lindo e ficou uma lembrança gostosa de infância, como eu queria...